quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A medicalização do corpo


A um tempo que converso com uma amiga antropóloga sobre como na contemporaneidade o corpo é cada vez mais alvo de controle. Um controle sútil e nada coercitivo, forçado, e sim valorando que "isso é o melhor para você". De fato algumas coisas são. Mas e o controle das emoções por meio do corpo? Passamos décadas na filosófia cartesiana de que é preciso separar as coisas. Mas como assim separar? Seriamos máquinas que guardamos arquivos e programas em pastas, abertas ao nosso bel prazer? Não devemos levar nosssos problemas para o trabalho; não devemos demonstrar nosso estresse porque isso a feta o convívio social, enfim, "N" regrinhas desse tipo. Mas, mente e corpo não são separados. Somos uma unidade viva sistêmica. Tudo integrado. Então, como controlar as emoções? Pelos remédios. Os antidepressivos atualmente são tidos como a pílula da felicidade. Mas até que ponto o uso de remédios não servem para controlar as emoões? Para dar alívio imediato numa sociedade em que o tempo "escorre pelas mãos" e portanto, não há tempo a ser gasto com emoções que precisam de tempo para serem vividas, assimiladas, acomodadas e/ou superadas? Isso não quer dizer que os remédios sejam ruins, como no debate sobre a tecnologia: Aliada ou Inimiga? A questão é que deve haver tempo para tudo. E são as pessoas que deveriam ditar seu tempo e não as coisas ou mecanismo que ajudem a tal controle emocionalmente sadomasoquista. Cada um encontra a estratégia que pode para sair desse dilema: usar ou não usar remédios? E em qual circunstâncias devem ser usados? Uma consideração importante que ouvi de um médico, rarríssimo por sinal, é que o remédio não deve se ater apenas ao sintoma, mas buscar com que o bem-estar proporcionado pelo remédio dê condições para que o paciente mude ou aceite sem tanto sofrimento, os eventos causadores do sintoma. Que o remédio ajude a dar uma nova valoração aos fatos. E fica aí a dica. Nem controle, nem bengala emocional, os remédios tarjas pretas apenas são"um estimulante temporário para superar e viver etapas". Depois bola para frente. Ainda tenho esperança de um dia alguém perguntar: E aí? Como você está? E o outro poder responder com toda franqueza e expressar todas as suas emoções de dor, estresse ou raiva, sendo ouvido e exatamente compreendido por quem pergunta.

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