quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Onde danado eu aprendi a gostar de ler?



Hoje fizemos uma dupla dinâmica para arrumar os livros paradidáticos e didáticos de onde trabalho. E tanta coisa veio a tona, além dos milhares de grãos de poeira...Uma delas foi minha primeira coleção de livros. Dada pelo meu pai, um cara que não é muito alfabetizado, acho que ele somente o fez porque os livros são, porque eu ainda os tenho, bastante coloridos e com uns hologramas na frente que dá a impressão que a figura tem vida. Eles possuem exatos 24 anos e a historinha que eu mais gostava era a da Pequena Vendedora de Fósforo, a mais triste. Pobre e órfã, a pequena vendedora ao final morre de fome e de frio na noite de Natal, com sua vozinha levando-a para o céu. Nossa que morbido para uma criança né? Mas eu na epóca não achei que a menina tinha morrido, ela tinha ido apenas para o céu com a avó falecida, enfim, fantasias de criança que ainda não aprenderam a lidar com a morte. No resto, a coleção tinha os clássicos, João e Maria, Branca de Neve, Cinderela, João e o Pé-de-feijão e o último, A pequena polegarzinha.

Depois dessa coleção, lembro de minha mãe lendo apenas uns dois livros em casa: O Pequeno Princípe e um que falava de escada e coração (suspeito que era auto-ajuda relacional). Nunca mais a vi lendo. Hoje quando acho algo interessante leio para ela em voz alta e pergunto o que achou. Me parece que as tarefas domésticas lhe tiraram o gosto de ler.

Um outro flash que me veio na cabeça e que comentei com a colega de trabalho foi sobre meus 11 anos quando fazia a quinta série. Tinha uma disciplina no Colégio Alfedro Dantas (CAD) que era ministrada por uma professora que tinha cara de bicho e nome de flor. A disciplina era de artes, mas era o momento obrigatório de leitura. Ela fazia uma exposição dos livros no bereaux e olhava para cara do aluno e escolhia o livro. Quanto mais bagunceiro o aluno, mais grosso e velho era o livro. Nossa! Morria de medo dela. Morria de medo de não conseguir ler. Nós tinhamos um mês para ler e fazer um resumo do livro como nota. Uma vez por semana e a cada mês viamos aquele olhares policialescos da professora e escutavamos o silêncio sepucral da sala na hora da leitura. Ela nunca deixava a gente escolher o livro. Na época ouvia as colegas de classe comentando sobre livros como Poliana Moça e Menina-mãe. Ficava louco para lê-los, mas como era ela quem escolhia...O Livro mais horrível que ela me deu foi um da menina arco-íris. O livro todo era menina visitando os países das cores: O país Vermelho onde tudo era vermelho. O país Amarelo...Esse foi o pior resumo que eu fiz porque não tinha o que dizer. Somente o nome da personagem, as cores que visitou e a volta para casa. Esse livro foi um trauma na minha vida...Nem sabia eu que outros traumas de indução de leitura me viriam mais tarde. Mas um dia tive a alegria de receber o livro que queria ler: Menina-Mãe. E É POR ISSO QUE HOJE SEMPRE ORIENTO AS PROFESSORAS:"Deixe os alunos olharem os livros, manusiarem, desisitir de um para pegar outro. Não tornem a leitura num castigo nem em uma obrigação..." Entretanto, garanto uma coisa: eu não aprendi a gostar de ler nessa disciplina, nem com essa pessoa. Por ela, o trauma com os livros teria sido grande. Deus me livre de alguém lembrar de mim assim.

Acho que depois disso só me resta falar da oitava série, quando lia os textos de um livro de Frei Betto de OSPB (Organização Social e Política do Brasil, garanto que era melhor do que Moral e Cívica da sexta série). Enquanto o primeiro era bastante crítico e me despertou o gosto pela leitura e crítica as coisas do mundo, os livros da segunda disciplina misturava patriotismo e religião, lavagem cerebral pura. E como eu adorava os porquês? Já viu. Será que foi aí que me perdi? Ai, ai...Ou me achei.

No primeiro ano científico, atual primeiro ano do ensino médio, pude escolher meu primeiro paradidático: O Golpe de 64 e a ditadura militar de Xavenato. Amei o livro. Era política pura, com fotos dos locais de tortura e tal...Depois disso sempre estava lendo a revista Veja. Em janeiro em plenas férias pegava a Veja de alguém, porque eu não tinha grana para comprar e lia de cabao-a-rabo. Nada escapava. Hoje já posso dizer que tenho minha opinião formada sobre o conservadorismo e o oportunismo de muitas das matérias dessa revista. Lembro que cheguei a falar para um ex-namorado que ficou enciumado por estar dividido minha atenção com revista que aquele tipo de revista não era para foliar porque não era de figurinhas, mas para ler. QUE CACETADA EM THAISA! Como fui arrogante. Ele saiu com raiva, também pudera...Os anos consecutivos foram para livros de vestibular, onde nem todos me agradavam.

Enfim, faculdade e o primeiro livro que escolhi para ler foi "O Existencialismo é um Humanismo" do filósofo Sartre. Me apaixonei. Mas o trauma com as leitura induzidas continuaram ainda na faculdade, mais por causa das professoras do que das pobres leituras, literalmente. Acreditam que tinha uma professora que chamavam-na de Pikachu (abaixo)? Outra mandava a gente completar frases como no jardim da infância. Tipo: O céu é.....

Bem, minhas aventuras pelos livros começaram com os contos infantis, cataputaram com Sartre e hoje leio tudo, até bula de remédio. Sempre tenho um livro comigo, entretanto, direcionado ao trabalho é verdade, mas isso está mudando ou pelo menos equlibrando. Quando numa livraria me sinto como uma personagem de um conto da Clarice Lispector, ansiando por um determinado livro como se fora um amante.

Hoje me sinto na obrigação de abrir esse mundo para meu irmão. Foi difícil, mas eu acho que quem ajudou mesmo talvez tenha sido um primeiro amor...mas que seja então! Ainda melhor.


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