sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Silêncios e segredos. Quem não os têm?


Do cantinho dos meus silêncios. Do cantinho dos meus segredos...

Na faculdade descobri que existia pelo menos 18 tipos de silêncios. Me lembro até hoje do que pensei na hora:"Silêncio é silênico e pronto". Numa resposta bem simplista sobre as coisas do mundo.
E nesse dia descobri que o silêncio pode querer dizer: dor, angústia, medo, surpresa, reflexão, meditação... mas não lembro se algum falava sobre segredo...Eu sempre disse a um amigo meu que toda família tem os seus segredos e sendo ainda mais geral posso dizer que toda pessoa e toda relação guarda ou guardam seus segredos. Pequenos talvez, outros vergonhosos ou quem sabe daqueles bem cabeludos...

Particularmente, me foi evidenciado essa relação silêncio/segredo, ao terminar de ler o mais novo livro de Lya Luft: "Silêncio dos amantes". Afinal todos são amantes independente do tipo de relação que estabelece: pai-filho, irmão-irmã, marido-mulher etc.

O livro é muito bom, mas nem se compara a "Perdas e ganhos" também dela. Talvez expactativas minhas. Ela reserva entre os seus 20 contos/crônicas, os melhores para o final. E ao terminar de ler pensei: Quais são os meus silêncios? Meus segredos? E logo percebi que meus silêncios e segredos apresentam um outro elemento como numa tríade: silêncios-segredos-medos. Guardo meus medos em segredo e, portanto, me silencio como o herói Aquiles que esconde seu calcanhar do inimigo Ares. Meus medos/segredos que não gosto de revelar nem a mim mesmo, posso pontuá-los mais ou menos assim:
  1. ser sozinha;
  2. ser dependente;
  3. ser carente;
  4. ser romântica;
  5. ser frágil/sensível;
  6. não ser hipócrita;
  7. não saber ser uma mulher
Claro que faço tudo ao contrário: me socializo, mostro ser indepente, auto-suficiente, racional, diplomática e bem "dona do meu nariz". Mas no fundo...É. Parece que hoje dei um grande passo a frente em romper os meus silêncios, em reconhecer os meus medos. Afinal já dizia o oráculo grego: "Conheces a ti mesmo". Ou quem sabe o enigma da esfinge: "Decifra-me ou te devoro."

Voltando ao livro, tenho que confessar minha grande heresia, para alguns, porque para mim nada mais se trata de conversar/interagir em silêncio com o livro: gosto de sublinhar o que é significativo, importante, nas páginas que leio. Quando quero relê-las é mais fácil encontrá-las e mesmo que meu pensamento tenha mudado, não me importa. Somam-se outros significados. Quando pego um livro marcado não me preocupo com as marcações de quem as fez, não induzo minha leitura, para falar a verdade nem reparo, noutras descordo ou concordo. Entretanto, jamais as faço em livros que não são meus ou públicos.

Sendo assim, marquei algumas frases que mostraram essa relação silêncio/segredo que nós nem sempre percebemos:

"Felicidade estava disponível ali tão perto, na manhã diante da varanda. No marido preparando o café, logo ele entraria no quarto com a bandeja, café, fruta e uma flor. Ela gostava de ser mimada, e às vezes ele gostava de a mimar";

"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bom e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos - e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna tão simples e tão indiferente".

"Mas como paixão é glória e insanidade...";

"E quando, na penumbra, se abraçaram e logo começaram a gemer, e se esfregar, e se procurar, ela sentiu entre horrorizada e feliz que suas grandes asas se desdobravam. Mas o amante não se assustou. Não se afastou. Apertou-se mais a ela, dizendo, vem comigo, vem comigo, vem comigo, vem comigo. E abriu suas asas também.

"Entre todos os amantes há zonas de segredo necesárias, que também podem unir. Invadidas, talvez provocassem inúteis sofrimentos. Leva tempo aceitar isso sem mágoas"

"Quase voltei, quase perguntei o que havia. Mas desisti e fui em frente, com a leveza dos que ignoram. Em vez de indagar, varri minha breve inquietação para debaixo do tapete, como a gente constuma fazer. E se eu tivesse perguntado? E se ele tivesse me dito? Se eu tivesse merecido saber?Isso me atromentou por longo tempo. Eu me sentia muito culpada. Hoje, acredito que não saber é o que torna a vida possível";

"Uma parte de nós fora desperdiçada, sem volta, sem remédio. Errou ele, errei eu? Essa dúvida, pungente dádiva, foi seu último presente para mim. (...) Basta um desenho antigo, já amarelado, um perfil marcante como uma figura de proa avançando pelo grande mar onde para sempre nos perdemos"

"Palavras uma máscara de tragédia ou nariz de palhaço, abrem campos queimados até a raiz da última plantinha, como os que se estendiam entre nós (...)Sem que eu soubesse, as coisas não ditas haviam crescido como cogumelos venenossos nas apredes do silêncio(...)"

"Cada perda tem sua hora, hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente"

"Diz que preciso me acostumar ao mundo real, que não posso ficar carregando um banquinho pela vida afora";

"Morrer devia ser como parir a si mesmo";

"Só porque existo, ofendo os outros";


"Mãe não conta, porque me pariu e e me ama com aquele amor aflito e culpado";

"A gente tinha só aquela [mãe] da qual era melhor ficar longe, sofrendo numa confusão de amor e raiva";

"Minha mãe definhando em casa, de amor, medo e dor";

"Que estranho o cheiro da velhice:mofo, alfazema e segredos"

Luft, Lya. O silêncio dos amantes. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008

Do cantinho dos meus silêncios. Do cantinho dos meus segredos...

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