quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Quando acabei com a vergonha e com o medo


Aqui em Campina Grande/PB, começa hoje a semana para segunda Parada Gay. Ela de fato se realizará sexta-feira a partir das 15:00 hs nas mediações do Parque do Povo tendo como sempre a diversidade sexual, humana e cultural como tema. Amanhã vou participar de uma tenda falando sobre afetividade e daí focando também a homoafetividade. Foi pensando nisso que pensei numa roda de conversa com quem fosse chegando e fiz o seguinte texto para ser lido e destribuido. Como sempre qualquer semelhança pode ser mera coincidência, mas reflete a história de muitos jovens, baseado então no que vi, já li e vivi...lá vai o texto:

Quando acabei com a vergonha e com o medo

Eu sou Luís e tenho 17 anos. Ainda não sei muita coisa sobre a vida, mas fiquei aliviado quando acabei com a vergonha e com o medo que sentia.

Tudo começou quando eu ainda tinha 5 anos. Meu amiguinho e eu brincávamos de carrinho quando ele sugeriu que a gente se deitasse e fingisse como ficavam papai e mamãe. Como a gente estava brincando de faz de conta, não vi nada demais. E ele me deu um beijinho, como pai e mãe fazem. Aí veio o terremoto na minha casa! Minha mãe viu o selinho, me bateu e disse que preferia me ver morto a ter um filho “viado”. Eu nem sabia o que era aquilo, mas pelo jeito que ela ficou era algo muito feio e errado.

Anos mais tarde, meus amigos de escola e minha família diziam que eu era estranho porque não era metido a machão. Eu nem sabia como era ser assim. Era falar forte, ser estúpido? Mas eu não gostava de ser assim. E eu ainda nem sabia o que estava sendo. Estava crescendo, ora! E foi aí que descobri o que os meninos chamavam de “viado” . Eram os meninos que gostavam de outros meninos.

Eu! Eu não quero ser isso não! Não quero ser chacota para meus colegas, motivo de piada. Não quero decepcionar minha família. Eu não sou isso não. Definitivamente! Mesmo não sabendo ainda quem eu sou. Sei que eu sou uma pessoa que está descobrindo o que gosta e não tem muita certeza do que não gosta.

Quando tinha então 15 anos, meu colega sugeriu que olhássemos nossos órgãos genitais. Fiquei tentado. Curioso. Seria igual ou diferente? Como? O que é que se sente quando se pega? E quando se olha? Todo mundo falava o que eu não era mesmo, então, decidi arriscar. De repente quando fiquei só em casa fomos nos observar. Foi quando a empregada quase nos pegou no flagra, nos olhando. Eu fugi, fingi e morri de vergonha. Ela não tocou no assunto, mas bastava pensar que ela podia imaginar que eu era...Eu era? Não sei? Ai, que vergonha! Que medo de ser.

Pensei, pensei e decidi procurar uma pessoa que eu confiasse. Que pudesse guardar o segredo das minhas dúvidas sobre quem eu era e nem eu sabia. Procurei uma prima mais velha e com uma super cabeça-aberta. Sempre falava comigo sobre sexo, me orientava e era engraçada. Contei o que tinha acontecido a ela e então me disse que era normal. O fato de ter curiosidade em ver e ter gostado que outro menino o tocasse não queria dizer que ele era “viado”, que por sinal era uma palavra muito negativa, ou melhor, não queria dizer que ele era homossexual. Mesmo quando menino e menina são pegos brincando de papai-mamãe, os pais brigam porque não é a hora certa. Porque as pessoas sempre falam de sexo como algo feio e sujo. E ela mesma me confessou que quando era criança brincou com outra menina também de papai e mamãe porque também tinha curiosidade como qualquer outra criança.

Minha prima disse que hoje tinha certeza que gostava de meninos porque teve a oportunidade de namorar e experienciar. E olha que ela quando adulta ainda beijou pra valer uma menina! – nessa hora ela deu uma risadinha, o que me fez pensar que ela foi até mais além.

Mas ela já tinha experiência suficiente para sentir do que ela gostava. E era por isso que ela me disse que somente o tempo e as minhas experiências vão dizer quem eu sou. E que isso vai mudar muito como o tempo, junto com o meu corpo e meus gostos. Tudo é uma questão de tempo e nada está confirmado. Seja apenas feliz e relaxe. Vá resolvendo os problemas da vida na medida em que forem aparecendo. Não tenha medo nem vergonha do que você fez, nem que porventura venha a fazer. Tem coisas que são só de criança e de adolescentes, mas que podem mudar ou não quando ficamos adultos. O tempo vai dar muitas respostas. Ufa! Eu, agora com 17 anos, ainda não sei o que sou, infelizmente não tive ainda muitas experiências, mas pelo menos tenho certeza de que agora me sinto aliviado por ter mais vergonha de mim, nem medo do que fiz. Com o tempo vejo se preciso encarar meus pais. Quando souber quem estou sendo, afinal amar não é amar incondicionalmente? Amor de pai e mãe não deveria ser assim?


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