terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cinematografia de um amor platônico


Se todo amor tem uma trilha sonora, com certeza também terá um filme. Inspirado então no filme “De repente é amor”, decidi fazer um conto/crônica dedicado a todos os meus amigos e amigas que vivem ou vieram um amor platônico, inclusive aos meus em diversas fases. Seja por causa da distância geográfica ou por simplesmente estarem em momentos diferentes de suas vidas.

Podemos encontrar nosso amor assim, por acaso, sem nem sabermos que ele o é. E nesses encontros e desencontros, às vezes é preciso mais do que planos perfeitos para viver. É preciso coragem e pequenas surpresas para mudar o rumo da nossa vida, mesmo quando parece que ela está dando errado. Se por acaso quando estiver distraído encontrar o seu amor, não perca a oportunidade, quem sabe seja a primeira ou a última vez. Lá vai e qualquer semelhança com a vida real pode ser mera coincidência...

Cinematografia de um amor platônico

Ao acaso se conheceram e ao acaso se encontravam. Ele um pouco mais jovem e inexperiente, ela um pouquinho mais velha. Enquanto ela já tinha tudo traçado, ele ainda nem sabia o que ia fazer muito bem do futuro. Como quem lápida um diamante, sem presa, pretensão, entrava no mundo dele. Era quase uma diversão inocente: conhecê-lo, sua pureza, sua sinceridade, sua simplicidade e aqueles olhinhos que brilhavam quando ela parecia dizer algo também simples, mais perfeito e sincero.

Desde então, quando um precisava do outro se ligava, marcavam um encontro. Às vezes era o trabalho, o tempo, ou então nada, que os faziam desencontrar. Havia sempre outras oportunidades, outras pessoas, mas quando os dois se permitiam estar juntos se faziam companhia era mágico. Ela ensinava sem querer magoá-lo. Ele aprendia como podia. Não havia um mundo como pano de fundo dessa história, somente os segundos que os dois faziam sem planejar: compartilhavam segredos, sorrisos e medos. Mas o tempo era implacável e logo à distância sem contato se tornava implacável por mais algum tempo novamente.

Num desses encontros ela decide que seria último daquele jeito. Tudo iria ser novo porque ela iria esquecer seus próprios planos; iria investir no diamante “quase bruto”; ir finalmente de encontro ao tempo. “Pagar para ver”. E nesse momento mágico que para ela era um novo marco, um novo início, ele fala que infelizmente era tarde demais. Daqui a alguns meses viajará ao encontro, agora, de seus planos, do seu futuro. Sem data para voltar.

- Eu não quero magoá-la. Você é a pessoa mais especial que conheci na minha vida. Nunca poderei esquecê-la. Sonhei tanto com esse momento, mas suas ausências perfeitas foram pior do que sua suposta presença incômoda por supostos problemas, planos...eu queria apenas estar lá. Eu nunca vou esquecer a mulher que fez meu coração bater mais forte quando ainda era um garoto. Nunca vou esquecer o desejo de querer chegar perto quando você estava no meio de toda aquela gente. O desejo de viajar somente para encontrá-la, de ter notícias quando você desaparecia. Foi você que me fez viver o momento mais inspirador da minha vida quando simplesmente eu não sabia nem o que fazer por pura falta de experiência. Lá estávamos eu e você. Finalmente a sós, descansando, como todo mundo, quando percebi seu olho encontrando o meu e as nossas mãos querendo se encontrar, apenas se apertar. Meu olho no seu olho. Sua boca nos meus dedos. Minha mão na sua mão. Seus dedos perfilhando meu rosto. Quando de repende alguém nos chama e voltamos à realidade como se nada tivesse acontecido ou como se nenhum “delito” tivesse ocorrido.

Ao final dessa declaração as lágrimas eram inevitáveis. Acabou ali. Era melhor acabar ali. Cada um com suas vidas e seus planos agora se distanciavam. Não havia carinho dele que pudesse reparar o que ela sentia: perda. E aquela foi à última noite que dormiram juntos, abraçadinhos. Foi à última vez que ele colocou ela para dormir, passou a mão entre seus cabelos e a beijava durante a noite.

O dia amanhece. Ela sofria. Ele dormia. Não agüentaria aquela despedida. O destino pregou uma peça nos planos dela: a surpresa do futuro o levava tão devastadoramente quanto a morte. Não tão pior do que a morte porque ela sabia que ele seria feliz. E ele merecia. Um último abraço nele ainda dormindo. A porta do quarto se fecha e ela vai embora. Foge como talvez sempre tenha feito na vida. A caminho de sua casa ela envia uma mensagem para o celular dele dizendo que sentia muito pelo que tinha acabado de fazer. E ele simplesmente liga para dizer apenas que a entende. Ainda muito preocupado com seu estado, o que a deixa ainda mais triste. Não havia motivo para ter raiva, mágoa, nem discussão, apenas aquele sentimento de vazio.

Ela sentia-se morta mais uma vez e machucava-se para saber que se sentia viva. Sentia-se vazia e tentava-se encher de qualquer coisa: amor, carinho, drogas, sêmen... Entretanto, esses remendos têm vida curta e quando esgarçam mostram a vergonha do que foi feito ou não, o que a deixava ainda mais morta e vazia.

2 comentários:

  1. Nossa, que triste! Uma bonita história de amor, mas melancolicamente tristonha...

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  2. Sinuosos, estes caminhos. soubeste apanhar o relevo!

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