sábado, 15 de novembro de 2008

Profiteroles em luto


Minha irmã siamesa perdeu uma grande amiga e prima de infância. Ela morreu jovem, aos 25 anos, e tinha lúpulos, o que debilitou o sistema imunológico dela e a faz morrer de uma parada cardíaca.

É muito difícil apoiar alguém que sofreu uma perda causada pela morte. E também não há receitas prontas do que se deve fazer. Profissionalmente, geralmente acolho com um abraço, seguro na mão e escuto tudo o que a pessoa tem a dizer: sobre os últimos instantes da morte, a saudade, a raiva por ter perdido...Uma das principais coisas que podemos fazer é escutar e deixar chorar, o que para alguns é algo muito difícil porque se deparar com a morte do outro é se deparar com a possibilidade de sua própria morte ou a de quem amamos. Por isso, alguns pedem o fim do choro e o sepultamento das lembranças que mencionem o morto, o que não é bom. Faz parte da elaboração do luto de cada pessoas falar sobre quem morre e quantas vezes forem necessárias. O assunto precisa ser esgotado dentro de quem sofre, portanto, não há um tempo determinado para esse tipo de conversa.

Quando o alvo do sofrimento não é diretamente a gente com os nossos medos da morte ou dos mortos ou quizá da dor da morte, também nos atinge. Fiquei triste pela minha amiga estar sofrendo, mas tinha que ser mais do que profissional. Tinha que ser amiga. E o que fiz? Passada a curtição da “ressaca” da morte junto à família, também necessária:

1. A fiz comer no café da manhã pelo menos um iorgute, brincando de aviãozinho;

2. Saímos de casa para resolver um problema no banco que não podia esperar;

3. De lá fomos ao shopping almoçar porque prometi fazer greve de fome junto com ela;

4. A fiz comprar o presente de Natal do namô, tudo com a intenção de desviar o foco pelo menos momentaneamente daquela dor;

5. Falei um monte de abobrinha, vimos um monte de besteira e ao final da tarde ela já estava distraída. A vida é longa e às vezes pesada, por isso temos que descarregar a carga para descansar e depois apanhá-la novamente para continuar. Se navegar é preciso, parar também;

6. Em meio ao sofrimento, a reafirmação de nossa aliança de cumplicidade. Minha irmãzinha deu-me um anel delicado, cheio de pedrinhas (como muitas pessoas esquecem que às vezes sou delicada) para ser usado do lado esquerdo do peito “dentro do coração”;

7. E o que o profiteroles tem haver com superação da dor? Foi a sobremesa que escolhemos na tentativa de ter uma boa surpresa nesse dia e que nem foi tão bom assim. Talvez ele seja um similar do verdadeiro profiteroles. Sempre falávamos em comer essa sobremesa porque na novela Cobra e Lagartos, quando o personagem Foguinho enricou só vivia pedindo e comendo isso porque era chic. O nosso se resumiu a duas bolas de creme com calda de chocolate, chantilly e uma casquinha não identificada feita de ovo, como biscoito seco, sei lá...Mas descarregar a frustração nele foi bom porque falamos “trocentas” vezes do quanto era ruim e de todos os pratos ruins que já comemos e não gostamos. O dia foi salvo naquele profiteroles.

8. Falamos inclusive sobre príncipe encantado e chegamos à conclusão de que não queríamos um princípe profiteroles: falsificado ou sem muito gosto. Nosso príncipe pode não ter cavalo branco, nem ser louro, forte e de olhos azuis, como nos contos, mas pelo menos o meu precisa ser sensível, inteligente, carinhoso e não-materialista. Com certeza nunca me agredira nem com palavras, nem com atos e nem com omissões. Se vier com algum bônus como “charman”, não gostar de viver de baladas ou similares, sem porra-louquices, que me faça rir, goste dos pequenos prazeres da vida e principalmente se sinta muito BEM do meu lado, como se eu fosse a melhor coisa da vida dele, o sol que brilha os seus dias e a lua nas noites escuras, quase como se fôssemos uma dádiva um para outro, será perfeito. Deixa rolar quem sabe o universo traz. Como diz uma colega, porque gastar nossa poupança com um fusca de segunda defeituoso se pode se ter o carro dos nossos sonhos se pouparmos mais um pouco? Meio gosto, gosto de mentira ou sem gosto, definitivamente não dá.

9. Perguntada sobre qualidade e defeitos que mais detestava em que amava, no caso específico da minha irmãzinha, respondei a excessiva carência e a apatia muito permanente que ela se deixa levar. É como se para ela não houvesse nem o revezamento dias bons e ruins. É quase sempre um continum. Eu e meu outro irmãozinho fazemos revezamento sim! Se não a gente se fode. Quanto à carência, ok! Também sou assim e daí talvez aquela explicação psicanalítica que detestamos muitas vezes no outro nada mais do que a projeção de nosso próprios defeitos...Tipo: cara-a-cara com a verdade. Afinal detesto ser carente porque esse sim é meu calcanhar de Aquiles.

Aproveitei o dia para jogar os búzios online e não é que a resposta deu direitinho...

Obeogunda responde odá

Amor

Não espere assumir compromissos, pois você mesma não está dando a devida atenção ao seu relacionamento; além disso, a indecisão toma conta de você. Este Odú é da liberdade, da ausência de vínculos, é o Odú vento, que nada consegue prender. Espere a calmaria que logo virá.

Saúde

Cuidado com problemas respiratórios, alergias, asma, bronquite, etc. Procure estar em lugares abertos e despoluídos, com boa passagem de ar. Dentro de escritórios, procure deixar as janelas abertas.

Negócios

Não seja precipitado ao tomar decisões importantes, pense bem se o caminho escolhido não vai contra a sua natureza. Tente não se influenciar

Testem vocês aí, a consulta com os orixás...

Um comentário:

  1. Acho que as perdas mais próximas foram meus avós... A mãe da minha mãs se foi em pleno reveillon. Eu e mainha em casa, sozinhas, chorando. Foi um reveillon triste aquele. Uns 12 anos depois foi meu avô paterno. Ele vivia dizendo que estava doente, se levava pro médico e nao dava nada. Foram anos e anos desssa ladainha até que um dia, ligaram para meu pai de Areial dizendo que ele disse estar precisando ir ao médico. Painho disse que logo cedo no dia seguinte iria. Não deu tempo... ele deve carregar essa culpa no peito até hoje. Meses depois a mãe do meu pai se foi como todo mundo deveria ir: dormindo. Essa foi a que mais me doeu... por amor, por afinidade, por ter sido repentina. E ano passado foi meu outro avô, que desde a morte da mulher, há mais de 12 anos, já tinha morrido um pouco. Não saía de casa desde então... foi definhando aos poucos. As ultimas 3 mortes foram muito sentidas, muito choradas e quando as lágrimas secaram, foram "blogadas". E esse era o último passo que faltava.

    beijo

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