sábado, 15 de novembro de 2008

A mentira - 1º. ato (a deslealdade via hi-tec)



Como sempre qualquer semelhança com a vida real pode ser mera coincidência...

O telefone é posto no gancho. Atordoada, ela não sabia se abria a geladeira, se pegava algum calmante, se ligava para algum amigo, até que viu o aparelho de som. Abriu no último volume a música. E tantas coisas vinham a sua cabeça como num turbilhão: Por quê? Desde de quando? Novamente? Não seria diferente? E a lealdade? Sim, porque não era uma questão de fidelidade, mas de lealdade. Ela nunca pedira nada e sempre dera tudo que lhe era exigido. Desleal era isso que ele tinha sido. Para não dizer canalha.

Na verdade aquele não era o fim de uma história, mas o fim do recomeço de, talvez, uma mesma história. Mas o que lhe angustiava naquele momento? A mesma mentira? O coração partido? Ou a certeza de que mais uma vez negara seus instintos que daquela história era preciso continuar mantendo distância. Mas pensava: “somos outros, o tempo passou, as coisas mudaram, as pessoas mudam, afinal o que motivou determinadas atitudes antes não existe mais.”

Ela então começou a lembrar e relembrar o passado distante e o presente de algumas horas atrás. Imagine! Eles pareciam tão mais honestos um com o outro, mais ligados, cúmplices, que para ela parecia impossível que ele cometesse a mesma deslealdade. Ele passando por um momento difícil compartilhava cada vez mais suas angústias internas, suas responsabilidades laborais, ela inclusive o “cobrira” algumas vezes. Pareciam mais articulados, interligados. Ela se sacrificara cada vez mais para deixá-lo bem. Nem mesmo as fofocas de “estúdio” o atingiria porque ela se meteria no meio para receber a bala em seu lugar. Assim como já havia feito, inclusive machucando-se em seu lugar.

As atitudes dessa vez pareciam valer à pena, mesmo que seu sinalzinho vermelho interno de alerta tenha piscado. As atitudes pareciam ter sentido ou um sentimento verdadeiro. A prova da ingratidão, da revanche e da deslealdade viera por acaso. Desde quando tudo começou na primeira vez, sim porque talvez aquela fosse a segunda ou a terceira ou quem sabe a quarta vez, sei lá, que recomeçavam, ela fizera questão de nunca pedir-lhe nada, de nunca dividir nada a não ser o carinho, a atenção e os corpos. Até que, por chiste do destino, ela pediu-lhe um equipamento de trabalho emprestado. Definitivamente o equipamento foi à chave para quebrar um tabu de silêncio ou quem sabe de acordos feitos nas carícias e subentendidos da relação. E se ela não tivesse quebrado essas regras? E se ela não tivesse objetivado dividir mais do que carinho, atenção, corpos e naquele momento objetos materiais,talvez nunca soubesse...Não se tratava de fotos escabrosas encontradas ao acaso...

Como aqueles homens super ligados em tecnologia, ele sempre tinha mais de um número de celular, o que às vezes a dava a impressão de ser um número para cada mulher, ou melhor, um número para cada tipo de comprometimento relacional que estabelecia com essas mulheres. Entretanto, ela fazia questão de fingir que não via a luz vermelha piscando, dando alerta. Queria deixar de ser finalmente cismada.

Ligou para um dos números, o mais utilizado por ambos... “o número se encontra desligado ou fora da área de cobertura”. Ela ainda pensou que se tratava de algum problema de urgência e então decidiu ligar para outro número a fim de obter o bendito elemento faltante do equipamento que havia pedido emprestado a ele. O número chama e finalmente atende:

- Oi, fulano...– Ela não teve tempo de completar a frase porque do outro lado da linha fora uma outra mulher que atendera, respondendo que não era o tal fulano, mas sicrana. Aquele nome era familiar. Tinha sido um dos motivos do rompimento da relação deles. “Mas ele não comentara nada nesse recomeço... parecia tudo acabado”.

- Ah! Desculpa foi engano. – Foi o que ela pôde dizer ao colocar o telefone no gancho. Ela não permitiria escutar nada novamente daquela mulher. Finalmente as peças se encaixavam, inclusive as da mentiras e da deslealdade...e como num turbilhão: Por quê? Desde de quando? Novamente? Não seria dessa vez diferente? E a lealdade? Sim, porque não era uma questão de fidelidade, mas de lealdade. Ela nunca pedira nada e sempre dera tudo que lhe era exigido, imposto. Desleal era isso que ele tinha sido. Para não dizer um canalha.

E com a música no último volume decidiu sair de casa, bateu a porta e foi em busca de outro caminho e de outro recomeço que não se reencontrasse com aquele trágico começo/recomeço. Ela não estava ferida, ele não mereceria nem mesmo um cisco de sua dor. Ela, embora chocada, estava aliviada porque nunca estivera errada quanto a quem ele realmente era. E dentro da casa continuava ressoando em alto e bom tom a música na voz de Marisa Monte: “Você não serve pra mim”...

“Não fique triste não se zangue
Com tudo o que eu vou lhe falar
Sinto demais, porém agora
Tenho que lhe explicar...

Você comigo não combina
Não adianta nem tentar
Não vejo mais razão nenhuma
Para continuar...

Não quero mais seu amor
Não pense que eu sou ruim
Vou procurar outro alguém
Voceeeeeeeeeeeê!
Não serve prá mim!
Não serve prá mim!...

Uma palavra de carinho
Jamais ouvi você falar
Seu beijo tão indiferente
Foi o que me fez pensar...

No tempo que eu estou perdendo
No amor que eu tenho para dar
Deve existir alguém querendo
O que você não quis ligar...

Não quero mais seu amor
Não pense que eu sou ruim
Vou procurar outro alguém
Voceeeeeeeeeeeê!
Não serve prá mim!...
Não serve prá mim!...

Pode ser que alguém
Lhe queira dar
Um grande amor
Quero que você seja feliz
Com outro alguém
Porque eeeeeeeeeeeeeu!
Não quero mais seu amor
Não pense que eu sou ruim
Vou procurar outro alguém
Voceeeeeeeeeeeeê!
Não serve prá mim!
Não serve prá mim!...”


Um comentário:

  1. Nossa, passei por uma situação igualzinha a essa!!!! Faz alguns bons anos, depois disso, meti o pé, recomecei e hoje estou casada (com outro), feliz (muito) e com um filho (lindo) coroando tudo.

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