quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Confraternizações

Como sempre qualquer semelhança com a realidade pode ser mera coincidência

Confraternizações

As festas de fim de ano não guardam apenas o clima de celebração, confraternizações e coisas do gênero. Elas estão imbuídas de jogos nos quais as pessoas apresentam diferentes estratégias para efetivar seus objetivos ou anseios. Os amigos secretos e os demais gêneros, necessariamente não querem dizer que as pessoas, material e simbolicamente, trocam “dádivas”, presentes, com toda a força de seus melhores afetos. Por trás dos presentes surgem muitas vezes diversas intenções, como manter as aparências para o grupo, aproximar, ou quem sabe reforçar a sinergia do grupo ou no grupo.

O fato é que foi dessa exata maneira que Laura ia a mais uma de suas infinitas confraternizações de fim de ano. Dessa vez, mais do que caprichara no presente. Reparara todos os detalhes desde o papel, ao conteúdo e sem esquecer do cartão. Ela queria que seu presente transpirasse um pouco de suas personalidade: um livro, um bom filme, uma garrafa de vinho e um belo cartão aconchegante.

Ela poderia ser enquadrada num hibridismo paradoxal entre uma mulher linda, extrovertida, sociável e ao mesmo tempo tímida, romântica e inteligente. Uma combinação complexa a qual a fazia se sentir quase sempre não completamente integrada a nenhum grupo. Pois bem, o cuidado com o presente tinha um alvo: seu amor platônico.

Como toda mulher que guarda traços do romantismo, desejar o amor sem poder ser correspondido era quase um carma. E foi do lado dele que sentira na confraternização. Por que platônico? Seus princípios não permitiam que jamais se insinuasse a um homem casado, portanto, quase celibatário. Criada numa família vitoriana, o que queria dizer bastante repressora, foi preciso muita força de vontade e anos de terapia para libertar um pouco de sua sensualidade e sexualidade, a qual muitas vezes foi vivida na clandestinidade, dando-a certo tom de mulher livre. Ele, por sua vez, jamais esboçara nenhum gesto que transpusesse a barreira platônica. “Por quê?” Ela ao mesmo tempo em que se indagava, agradecia o fato dele jamais ter se atirado em cima dela com a fome de um lobo, com certeza se desencantaria com o que idealizara do seu cavalheiro

Estava linda na confraternização, num longo preto que tinha um “Q” de despojamento e sensualidade, além de uma maquiagem natural destacando levemente os olhos e marcando sua boca bordô. Logo, se pôs a falar e brincar com os colegas. Ao mesmo tempo em que pensava: “Será que percebera e me achara bonita no mais íntimo do eu dele? Será que percebera e assim como eu prefere guarda discrição por ser casado? Como ela poderia pensar nisso? Será que ele a daria uma carona após a festa? Quem sabe um bom motivo para ter seus olhos fitados nos dela por pelo menos um breve até logo. Por apenas um segundo. Somente isso, mais nada”.

Enquanto algumas mulheres da mesa lembravam a sua época de movimento feminista de pegar carona, de “viver o tesão na pele desde a ligação porque simplesmente aquele cara queria vê-la”, de como a rotina é uma merda para quem casa, Laura também pensava em quantas aventuras e desventuras vivera. E como não casar tinha dado-a oportunidades e viagens incríveis. Embora sempre pensasse à noite nos caminhos que não tomara, no casamento e nos filhos que não tivera. No ombro para chorar que não tivera tantas vezes e que necessitara.

Absorta em seus pensamentos, segundos depois voltara ao papo que corria solto na mesa. Não tendo como se proteger, ela colocou os óculos de grau que há davam um ar de seriedade e de anteparo. Sentiu-se de repente ameaçada pelos presentes. Pareciam maiores do que ela, pragmáticos, enquanto a mesma representava o papel de também fazer parte dessa grandiosidade ou pragmatismos.

Enfim, ela decidiu ir embora mais cedo e sozinha. Despediu-se de todos, porém, ansiando estar na companhia das recordações daqueles minutos clandestinos. Na companhia de todos os eventos daqueles segundos no qual teve a oportunidade de servir seu amor platônico a mesa, de fazer um chiste e de tocá-lo como que por acaso. Uma noite boa, tranqüila, a qual teve como desfecho a resolução de um mistério, de um medo interno que guardava e não sabia as causas. O medo de baratas. Pois é! Ela sentira dentro de si depois de um pesadelo em que as baratas a atacavam e a paralisavam. Não era um medo comum, mas um pavor, pânico mesmo. Quando a folha de uma árvore roçava por acaso seu pescoço logo saía aos berros imaginando que já era uma barata que a atacava. Não era um simples nojo.

Naquele último pesadelo pôde perceber que o medo do inseto na verdade simbolizavam medo de sexo, ou melhor, a possível sujeira desse ato que tão cautelosamente foi inculcado em sua cabeça desde menina. Barata: bicho sujo. Sexo: sujo. A barata vai a lugares sujos. O sexo também penetra em lugares supostamente também sujos, de onde saem nossas secreções e nossos excrementos. Afinal não era à toa que a crença popular associa vagina a barata, que nas canções de pagode ela ainda merece ser chicoteada, chinelada e estapiada.

Sabendo dessas revelações se libertaria do medo? Bastava apenas saber disso? Episódios da época de criança começaram vir à tona. Por isso, sua obsessão por limpeza. Era ela se negando. Negando seu desejo que não poderia ser nem afirmado para si mesma. Ela reprimia tudo que achava sexualmente sujo, limpando, e ainda usava a máscara de mulher livre, mas nem tanto assim como acabara de descobrir. Incluindo seu desejo platônico? Talvez, mas nada passará de um sonho ou de um pesadelo. O tempo é que dirá.

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