segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Felicidade Clandestina




Ela não recebia nada: um olhar, um afago...Nada que pudesse alimentar aquele desejo insano daquele amor platônico. Platônico porque ela não se revelara, pelo menos não diretamente ou objetivamente. E a ele porque talvez não lhe fosse permitido desfazer seu matrimônio de anos.
E o que os unia além da admiração dela por ele e do respeito dele por ela? Breves cartões virtuais de fim de ano. Poucas palavras, mas o suficiente para que ela, pelo menos uma vez em sua vida se sentisse importante e acariciada pelas palavras, somente para ela e para mais ninguém. Naquele pequeno espaço virtual dos cartões ela sentia que ele era dela e ela dele. Se bem, que era verdade que ele não dava muita margem para sua imaginação. As palavras eram curtas, mas aqui e ali ela achava com o que fantasiar...

No primeiro cartão virtual ela foi mais concisa, desejando apenas boas festas. Ele não a respondeu.

No ano seguinte ela mandou mais um. Dessa vez ela decidira ser mais atrevida e poetizou recitando uma musica na qual ela declarava-se: “...se tivesse um canudinho eu me enchia de você e acaba com o vazio, o vazio de viver. Você me embebeda, você me enlouquece a meu Deus se eu pudesse... sugaria para dentro do meu mundinho...”. E disfarçando, completou a direta mortal com os um mundinho cheio de votos de paz, felicidade, típicos de fim de ano. Ela necessitava saber se poderia ou não alimentar algo, pelo menos em sua fantasia.

Se ele não a respondia antes, imagine agora. Ela sabia que tinha ido longe demais. No outro ano insistiu. A proximidade entre eles por causa do trabalho aumentara. Então, foi menos direta e mais metafórica: “Que possamos estar mais juntos no próximo ano, de grandes realizações conjuntas...”.

Dessa vez ele respondera: “Que assim esperava e desejava um ótimo 2009”.
Pela primeira vez ele respondera e dessa vez mais caloroso. Ela lia e relia. Tentava arrancar em cada palavra a fantasia de que poderia estar juntos, de que ele pelo menos a desejava mesmo não podendo...Isso para ela era suficiente: seu desejo interdito.
Ela estava exultante. Esperando o cartão virtual do próximo ano. Seria mais intenso da próxima vez?


Mais um ano se passou e ela decidira não mais alimentar aquela fantasia. A fantasia se desfazia com o trabalho conjunto. Ele parecia cada vez mais pragmático com ela, sem deixar de ser educado como sempre.


- Basta! Tentarei vê-lo como qualquer outro – disse a si mesma - Tudo bem que ele parece perfeito.


Então, quando descobrira sua primeira imperfeição terrível foi nela em que se agarrou: ele dimplesmente palitava os dentes. Que horror! Logo ela que adorava um homem fidalgo...
Enfim, o final do ano chegou. Ela não resistiu novamente em mandar mais um cartão e nele a ambigüidade de suas palavras e fantasias rolavam soltas:”Eu desejo...
Eu continuo desejando...UM ANO DE MUITAS REALIZAÇÕES PARA VOCÊ.


Era isso que ela gostaria: desnudar seu desejo em carne, osso e fantasias. Dessa vez ela recebera mais uma resposta. De exatamente quatro cartões virtuais, recebeu uma segunda resposta. Nossa! Como uma verdadeira vigia de sua caixa de e-mails, esperava ansiosa alguma confirmação de que ele havia lido o cartão e quem sabe, com muita esperança, a tivesse respondido de modo mais caloroso.


Os dois e-mails foram recebidos: o de leitura e o de resposta a sua gentileza e nele constava nada mais, nada menos do que breves linhas: “Que seu ano de 2009 seja de conquistas. Boas Festas”. Mais direto e seco impossível. Enfim, aqui jaz mais um desejo, mais um amor, mais uma fantasia e uma felicidade clandestina.







Um comentário:

  1. Amores platônicos não precisam necessariamente ser alimentados pelo mundo real. Vivem das fantasias que criam sobre o objeto amado. E, é por isso, que quando tornam-se, por ventura, reais, muitas vezes não sobrevivem.

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