quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Mulher não trai, se vinga

A primeira vez que ouvi essa música “mulher não trai, se vinga”, achei ridícula. Por quê? Basicamente porque era um forró de plástico e eu odeio esse tipo de forró. Entretanto, depois que fui interpelada por uma recepcionista sobre um papo que ela ouviu enquanto estava no trânsito a respeito dessa música, abandonei meus preconceitos e comecei a pensar sobre esse novo hit do verão...
Lado A da história:
Mulher pode sim trair por vingança. E a maioria alega que traiu porque foi traída. Não podemos deixar de estar atentas ao fato de que, quando uma mulher chega ao ato de trair, quase sempre afirma como motivo a traição do parceiro. Hipocrisias à parte, concordo com o trecho da música de que os direitos são iguais. Então, se um dos parceiros trai, o traidor deixa de ter o direito de exigir fidelidade. Se ele quebrou o acordo, que pague a “multa”. Pode ser até entendido como a lei de Talião “olho por olho, dente por dente...”. No entanto, isso vale para ambos os envolvidos: trai-se também por outros motivos que não a traição do parceiro.

Em alguns casos se trai por tesão, pela falta de algo na relação, pela sensação de incompletude, de vazio, de mesmice, por aventura, enfim...Sendo assim qualquer um pode trair e não só por vingança. Eu já fui traída por vingança. Alegação: maus tratos aos sentimentos do meu parceiro.
Infelizmente a traição feminina é carregada de preconceito. Homens e até algumas mulheres se atem ao fato de que se a mulher trai está transgredindo uma norma social, portanto, é puta, rapariga...Se o homem o faz, é porque é instinto ou porque teve motivos... E os direitos iguais de novo? Parece que só existem ainda no papel....A muito para se aprender. No entanto...Não me lembro de sentir-me vingada com o ato. O fiz porque procurava saciar uma falta insaciável...Buscava o tesão e o amor que me faltavam na relação. Não estou aqui na defesa de que existem ou não motivos nobres para se trair, mas do que qualquer coisa, cada ser humano tem seus motivos e que normas sociais as vezes passam por cima de motivos humanos e que devem ser tratados, portanto, com igualdade, como diz na Declaração Universal dos Direitos Humanos: “todos são iguais independente de cor, raça, gênero, religião...”. No entanto...

Lado B da história:

A música não deixa de colocar a situação pelas quais as mulheres contemporâneas passam e que supostamente estariam cansadas de viver. Ou seja, cansadas de ficar apenas esperando seus parceiros voltarem da esbórnia enquanto as ditas mulheres deixaram de ser “tontas”, submissas, abrindo mão de suas vidas e de seus amigos em nome de filhos, de carreira, de família... Trata-se da liberdade que aos poucos a mulher vem conquistando em expressar da forma como quiser seus sentimentos para com o parceiro.

E uma coisa é certa. Desse ponto, “a voz do povo [na música] é a voz de Deus”, portanto, há uma outra revolução feminina em curso, no "de casa para a Igreja, da Igreja para casa. Ou então, de casa para o trabalho, do trabalho para casa". Se é que podemos chamar tais mudanças de revoluções. Tratam-se de mulheres que além de estar no mercado de trabalho conquistando espaços, criando famílias sozinhas, superando-se, tornam-se de fato donas de seu corpo, de seu desejo, de suas emoções e de suas atitudes, sem precisar da tutela do pai, do irmão, do marido, do noivo ou do namorado. “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”... Já dizia a música de Geraldo Vandré que embalou o movimento das Diretas Já! (entre as década de 60 e 70).

Mas voltando um pouco ao início da conversa que a recepcionista ouviu no trânsito, a polêmica era entre meninos e meninas. Meninos indignados com a letra da música e meninas apegando-se a igualdade de direitos e sua fidelidade amorosa abalada pelas sucessivas traições, pela humilhação de se tornarem "a galheira ambulante" . Treplica de um dos meninos:

- Ah, isso é tema de livro [talvez referindo-se ao livro de Arnaldo Jabor "Amor é prosa Sexo é Poesia" que por acaso estou lendo]. O problema é que vocês quando olham para um homem imaginam um monte de corações fofinhos, rosados...[ou seja, que pensamos logo no amor da nossa vida, em nosso princípe encantado. Nossa! Nós realmente somos mulheres carentes e desesperadas é? Cadê a autonomia mulherada? ] E nós vemos o coração invertido: a bunda [enfim, que a bagaceira é só por aventura e tesão. Novidade...]


Lá vai a letra original para você tirar suas próprias conclusões...

Mulher Não Trai, Se Vinga
Aviões do Forró
Composição: Elvis Pires e Rodrigo Mell

Mulher não trai, mulher se vinga Mulher cansou de ser traída
Mulher se vinga, mulher não trai
Eu era boba, não sou mais... Ficar em casa esperando você
Ficar dizendo o que devo fazer
Você curtindo aí a sua vida
E eu perdendo amigos e amigas...
Ficar te amando e você nem aí
Se divertindo e zombando de mim
Você curtindo ai a sua vida
E eu perdendo amigos e amigas...
Escuta meu bem
Eu não fico atrás
Entre homem e mulher
Os direitos são iguais... (2x)
Eu bato de frente
É dente por dente, é olho por olho...
Mulher não trai, mulher se vinga
Mulher cansou de ser traída
Mulher se vinga, mulher não trai
Eu era boba, não sou mais...

Pintura sobre o mito do apóstolo Daniel jogado na cova dos leões por traição: idolatraia a Deus e não ao Rei

2 comentários:

  1. amooowwwww
    brigadaço pelo selinho mais que especial!!!
    adoreiiii!!!
    valeu por ter lembrado do meu humilde bloguinhO!!!!
    assim que tiver um tempinho (provavelmente no FDS) eu posto láááá!!!

    valeu mesmo


    adooreiii

    beijããããooooooooooooooo







    Criisss

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  2. Bem estudo este tema, a mulher na cultura popular cearense, uma análise do forró contemporâneo. Encontrei seu blog entre as alternativas de busca sobre a música, concordo com sua colocação e assim como você enxergo um certo avanço na letra.
    Contudo, faço algumas reflexões, mulheres continuam sendo referenciadas como seres movidos pela emoção, o desejo, o sexo, a busca feminina pelo prazer apenas, ainda é um limite do nosso tempo. Não posso deixar de perceber o reforço de papéis socialmente estabelecidos na letra, ela nunca trairia se o companheiro não a deixasse de lado pela farra ou por outras mulheres. Será que é tão simples assim? Ter mulheres que vivam em função de homens permite que a ideologia patriarcal permaneça viva, e continue a servir como arcabouço de manutenção da sociedade do capital.
    Somos seres de desejo, somos mulheres que podem e devem vivenciar seu sexo, sua sexualidade em plenitude. Não traimos somente por vingança, esse discurso muitas vezes nos afasta do profano, pois, divide o sentimento de culpa que a sociedade nos impõe!
    Não sou defensora da traição, muito menos da fidelidade, sou a favor da relação livre e tomada de decisão pautada no que acredito, sou contra ao processo de alienação que estamos submetidas!
    Trair ou não, é uma decisão da mulher ou do homem, e deve ser movida pelas escolhas que eu faço e acredito e não para ferir quem esteja comigo. Não é da essência do homem trair é da cultura machista/patrircal que contribui para que nos construamos assim!
    Um grande abraço e a luta feminista continua, pela construção de uma sociedade livre da opressão/dominação/exploração de mulheres/homens sobre mulheres/homens!

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