sábado, 17 de janeiro de 2009

Nem eu, nem o outro. E daí?



Lembram de uns versos de Mário de Sá Carneiro, poeta português, que ganhou melodia na voz de Adriana Calcanhoto?

“Eu não sou nem sou outro

Sou qualquer coisa de intermédio

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o outro.”.

E daí? Daí que isso tem tudo haver com o livro “Mentiras no Divã”, um romance que Yalom (2006), psiquiatra e psicoterapeuta americano, desenvolve a partir de histórias que giram em torno de mentiras ditas no divã, seja pelos pacientes ou pelos próprios analistas. Não só aquelas mentiras ditas intencionalmente, mas aquelas que acreditamos ser a nossa própria verdade, o nosso próprio eu. Eu ou outro?Ou quem sabe qualquer coisa de intermédio?

Confesso que a atração por esse livro se deu pelos seus dois últimos lançamentos: “A cura por Shopenhauer” e “Quando Nietzsche Chorou”. Se li algum dos dois? Não, mas vi o filme sobre o segundo e me tocou profundamente...Então, como “quem não tem cão cassa com gato”, na livraria havia o “Mentiras no Divã” , então, comprei. Quem sabe encontraria a luz para “todos” meus problemas existenciais e profissionais (rsss!).

Como o próprio Yalom (2006), quem sabe plagiando o filósofo Sócrates na frase só sei que nada sei”, disse: (...) a certeza é inversamente proporcional ao conhecimento”(2006:16). Quanto mais conhecimentos, menos sabemos e temos menos certezas...

Outra coisa que me chamou atenção foi a sutileza com que ela coloca a questão da tirania. Geralmente temos a idéia de que um tirano é dominador, mas há uma passagem brilhante do livro dele à respeito de tiranos que fazem parte de nossa vida e nem nos damos conta que casa perfeitamente com uma citação que encontrei em Simone De Beauvoir. Em sequência então:

“Um homem basicamente benevolente que, entretanto, era tão intimidador que ninguém ousava confrontá-lo”. (2006: 259).

“Ela prefere ver uma alma condenada, a se mostrar abertamente tirânica” (1980:117)


Ou seja, a tirania se faz perceber até mesmos entre as criaturas mais dóceis que com jeitinho de que não quer nada, a não ser o bem, faz aquilo que elas realmente querem e não que é melhor para o outro. Benevolência pode ser tão intimidadora e opressora quanto a tirânica aberta.

O mais impressionante na trama do livro é como assumimos papéis sociais que acreditamos ser nosso e que na verdade são dos outros, o que foram ou desejaram ser: nossos pais, nossos cônjuges, nossas profissões e tudo que esses papéis exigem. E nos torturamos, sem saber o que fazer e como fazer para alcançar aquilo que não sou o eu, mas para o outro, para o nós, o desejo do outro, enquanto o tempo passa e a vida passa desapercebida.

Vixe! Isso também me lembrou o sociólogo americano Anselm Strauss (1999) quando coloca que as identidades individuais e coletivas se constituem mutuamente e que assim sendo a problemática individual estabelece conexões relevantes com os processos sociais. Talvez também por isso, o Yalom (2006) tenha uma citação tão interessante sobre como o indivíduo acaba entrando nesse jogo coletivo:


“É o modus operandi da ortodoxia. Eles asfixiam um jovem e perigosos cérebro que está florescendo no estrume da doutrina durante alguns anos até que ele passe a semear. Então, quando a última partícula de criatividade tiver sido soprada e eliminada, eles diplomam o iniciado e confiam que ele, em sua imbecilidade, perpetue o santo livro. (p..116)

Vários trechos do livro me impressionaram. Eu escolhi os meus. Você se quiser escolha os seus...

“Lia até mesmo os fugazes livros de suspense, aqueles de se ler de uma só vez, com lápis na mão, sublinhando partes que o comoveram ou o fizeram pensar, possivelmente para usar em seus próprios textos. [Um] procurava por palavras e imagens poéticas e interessantes, [outro] por ideias. P. 118

“poema de Whittier: “de todas as tristezas da língua ou caneta, / As mais tristes são estas: “Poderia ter sido”.” p. 226


“Ou será que funcionava de maneira oposta? Se não fosse tão duro consigo mesmo poderia ele ser mais clemente com os outros? p.365

“Ser transparente não significa ser escravo de todos os caprichos e vôos de curiosidade” p. 230

“Se quiser ter orgulho de si mesmo, então faça coisas das quais possa se orgulhar” p. 22


“Também tinha a noção de que xeretar nas cinzas do passado era meramente uma desculpa para escapar da responsabilidade pessoal por nossas ações” p.17

“Rastejo no porão e lambo as minhas feridas”. p. 42

“Sinto-me morta e me machuco para saber que estou viva.
Sinto-me morta e devo assumir riscos perigosos para me sentir viva.
Sinto-me vazia e tento me encher de drogas, comida, sêmem.
Mas estes consertos têm vida curta. Acabo me sentindo envergonhada – e ainda mais marta e vazia” p. 20

SOBRE O CICLO AUTODESTRUTIVO QUE ALGUNS SERES HUMANOS SE COLOCAM...


Constituído pelo vício pelo ódio de si mesmo – autodestruição – mais ódio por si mesmo devido a vergonha e autodesprezo pelo seu comportamento (p.21. [Sem esquecer que] (...) autodestrutivos negam demais( p.19)


(...) o comportamento impulsivo parece ser antecedido por um estado emocional de enorme vazio ou de falta de vida e o comportamento de risco, as mutilações o sexo, os excessos compulsivos, tudo pode ser uma tentativa de se ocupar o máximo possível ou de levar de volta a vida (p.20)



STRAUSS, Anselm L. Tradução de Geraldo Gerson de Souza. Espelhos e máscaras: a busca da identidade. São Paulo: EdUSP, 1999

BEAUVOIR, Simone. Tradução de Danilo Lima de Aguiar. Quando o espiritual domina. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

YALOM, Irvim. Tradução de Vera Paula Assis. Mentiras no Divã. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Queres aclarar, observar, deduzir, narrar despretenciosamene? Bem-vindo! Caso queiras apenas maliciosamente criticar, por acaso não é seu espaço, nem virtual...