terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Meu encontro com Simone de Beauvoir


Indicação de 2008 e que a cumpri logo em janeiro desse ano, me foi dito que nenhuma mulher consegue entender o espírito de liberdade, inclusive em amar, do amor ou da paixão, senão Simone de Beauvoir. Até então, sobre a autora sabia apenas que era existencialista amante do filósofo Paul Sartre e comunista, o que me foi suficiente para que eu mesma tivesse minhas próprias impressões sobre a leitura de um dos seus romances não tão propalados, “Quando o Espírito Domina”. A história de cinco mulheres que se encontram, mas não se misturam. Histórias não circulares.

Nem de longe a autora faz uma apologia ao espiritualismo ou a espiritualidade. Minha impressão é que quando esses dominam, muitas vezes, nos deixamos convencer por crenças que não são as nossas e principalmente que nos impede de ser quem queremos. E em nome de que? Ou de quem? Os trechos com as quais me identifiquei:

Marcelle

“(...) a verdade é esta: quero gigantes e há apenas homens”. (p.27)

“- Dou o que posso aos outros, sempre, e quem me dará algo em troca?” – ela murmurava, ao se reencontrar em seu quarto forrado de tecido verde-pálido; passava tristemente os lábios nas flores de pétalas macias que sempre enfeitavam sua mesa. Gostava de falar a objetos, coisas inanimadas, acariciá-los; mas exigiam dela e nunca se recusavam. Muitas vezes apesar do perfume da rosas, na claridade suave da luz de seu quarto ela chorava”. (p.22-23)

“Um dia acolhia-o com ar grave e falava com tanta emoção da trágica condição dos humildes que ele, ao deixá-la, ia-se com lágrimas nos olhos; no dia seguinte zombava dos problemas sérios (...)

- Há mais de uma mulher em mim – disse” (p.23:24)

“Os duros anos que enfrentei sozinha, sem amor, não os lamento; minha alegria não seria tão imensa se não tivesse aguardado em pranto. Como é maravilhoso... abandonar-me enfim ao poder misterioso que anima um grande amor, depois de carregar por tanto tempo como um fardo o peso de um coração inútil.” (p.24)

“(...) ela se perguntava com tristeza se o vazio de seu coração seria algum dia preenchido e olhava com desespero para os homens de mãos calejadas, para as mulheres de rosto cadavérico, para aqueles olhos que não refletiam a luz de um ideal; (...) Eram vidas sombrias e subterrâneas como os túneis onde o trem penetrara (...) A garganta de Marcelle fechava-se de dó, e parecia-lhe carregar nos ombros todo o sofrimento do mundo (...). Á sua caridade inútil juntava-se o mal-estar físico provocado pelo odor do suor humano (...) Essa figura patética merecia o amor de um herói.

- Ah! Meu bem amado – murmurara” (p.17)

Chantal

“Sim, tal como essa menina instintiva e franca, é preciso datar nossa consciência da fluidez movediça da vida e captar com intuição eternamente renovada e eterna renovação do mundo”(p.58)

“Há dias aparentemente sem importância que nascem num sorriso e que vão desvendando ao longo de suas horas iluminadas uma chuva de pequenas felicidades, vibrando e cristalinas como as notas de um carrilhão” (p.59)


“São todas solteironas sem sensibilidade, orgulhosas da inútil e pesada cultura que possuem, nunca olharam de frente o verdadeiro rosto da vida. Felizmente, quando me convém, sei abstrair-me dos ambientes que me envolvem; enquanto tagarelavam eu me achava inteiramente absorta, ouvindo ressoar dentro de mim o cântico fraco e agudo de um cravo, cujas sonoridades antigas pareciam traduzir exatamente o passeio matinal que despertara em mim”. (p.57)

“Quando chego ao liceu, toda penteada e bem pintada e com uma blusa de tom ruivo de certos crisântemos, sinto fizar-me em mim o olhar cheio de reprovação de minhas colegas e ao olharem pouco maravilhado das alunas, que devem achar-me muito irreal. Adoro descer as escadas correndo, sob o olhar escandalizá-lo das inspetoras”(p.57).


“Maintre fleur êpanche à regret

San perfum doux comme um secret

Dans la solitude profonde”

“Tanta flor revela com desgosto

Seu perfume suave como um segredo

Na solidão profunda”. (BAUDELAIRE citado por BOUVEAUR p.50)

“Assimilar dois princípios essenciais: o que é sempre elegante e que a classe de um traje depende em grande parte dos sapatos que o acompanham”(p.65)

Lisa

“Ela prefere ver uma alma condenada, a se mostrar abertamente tirânica”(p.117)

“Á sua volta, os eruditos, os estudante, os maníacos e os marginalizados decentes que são os freqüentadores habituais da biblioteca, passavam calmamente as páginas de seus livros; (...) Naquele atmosfera de estudos, Lisa sentia o sangue lhe subir à cabeça antes mesmo de começar o trabalho; usar o cérebro como uma máquina de moer conhecimento que não interessam à vida; que barbaridade” (p.113).

Anne

“Senhor, livrai-nos de tréguas muito prolongadas e da ilusão de haver chegado se já lá onde for” (p.159).

“Não se mede uma amizade pelas horas de presença”(p.162)

“Como fazê-la entender que a amava muito melhor do que a amaria se a amasse mais?” (p.167)

“A vida se completa na morte, e a morte é fonte da vida; não paira maldição nenhuma sobre a terra” (p.183)

“(... ) sabia muito bem que Anne era capaz de desperdiçar ridiculamente tesouros de heroísmo; só se servia deles para sofrer, para se negar; era preciso ensiná-la a usá-los em função de sua felicidade” (p.158)

“- Você própria já me disse que essas entregas à vontade divina com freqüência escondem preguiça e covardia. Sua resignação na realidade é uma escolha. Como é que você sabe se Deus não quer de você justamente o mais difícil, não a renúncia, mas a luta, não a recusa de viver, mas a vida? (p.158).

“(...) os estudos tornam as pessoas complicadas e orgulhosas. Não mudaram o coração dela, e deturparam-lhe o espírito...” (p.134) – (...) detesto intelectuais (...) O olho de uma mãe jamais se engana...É a primeira vez que faz segredo para a mãe...Quando se trata de uma filha, a mãe tem o direito de cometer uma indiscrição”(p.134)

“Foi à primeira vez. Nunca meus filhos esconderam nada de mim” (p.135)

“Mudou depois dessa carta, pensou a Sra. Vignon com amargura; antes era somente dela que dependiam as alegrias e as tristezas da filha. (...) e o que há talvez de mais duro é pensar que todos os nossos sofrimentos não nos permitem poupar aos que vêm depois de nós um único sofrimento sequer”(p.168)

“uma alma por demais ardente pode usar seu invólucro carnal até aniquilá-lo; mas, infelizmente – nesse esforço para se depurar, não arruinaria a si própria? Naquele momento extremo em que o espírito se liberta afinal, não se desvanecerá para sempre? (p. 169)

“Era mulher, apesar de tudo, e a felicidade era para ela uma realidade com a qual era preciso contar; quanto a ele nunca achara muita diferença entre suas piores dores e suas maiores alegrias. (p.174)

Margueritte

... personagem com a qual a própria Simone de Bevoaur declara no prefácio do livro ser com a qual mais se identificou...

“É preciso que saiba se jogar pela janela até a liberdade (...); no dia em que você não ligar para ela, para mais nada, aí você a possuirá, somente assim”(p.200).

“Preparavam minha liberdade futura com a mesma economia com que mamãe guardava dinheiro para sua velhice”(p.200)

“Baudelaire (...) dizia que o pecado é sempre o “lugar vazio” de Deus”(p.204)

“Nenhuma lembrança, nenhuma espera prolongavam minhas percepções; era como se eu ficasse na superfície das coisas, uma superfície nua sem poesia e sem promessas, porque eu nunca esboçava um gesto sequer para penetrar nelas mais intimamente”. (p.199)

Bem típico do moralismo, essa mortificação do corpo pela mortificação da alma subjulgada a moral e a valores sociais.

Beauvoir, Simone. Tradução de Danilo Lima de Aguiar. Quando o espiritual domina. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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