segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O chaveiro


Esse conto, que como sempre pode ser inspirado em fatos reais ou ser mera ficção, foi inspirado nesse conto da Vida sem Manual.

O chaveiro

Dias difíceis aqueles. Como sempre um forte sentimento de fuga a impelia novamente. Embora fosse uma mulher que se identificasse por ser combatante, quando se sentia derrotada numa guerra interna, com ela mesma, fugia.

Era tarde da noite. E essa noite em particular parecia mais fria do que todas as outras.De início ela ficou pensando se devia ou não fazer aquilo. Mas essa não seria a primeira vez...e quem sabe nem a última. Num relance ela pensou em todas às vezes que fugira não tão recentemente.

Da casa do seu amante pela manhã. Motivada por uma cansativa madrugada de discussões sobre ciúme dele para com ela, sentindo-se derrotada e que o fogo da paixão agora poderia encendiar não só a sanidade dele, mas a dela também, ela descidira fugir. Após ter passado o restante da madrugada chorando na varanda do apartamento, vendo o sol nascer, assim que surgiu pegou sua bolsa, a chave que ficava pendurada próxima a porta de entrada e foi. Desceu as escadas correndo, andou rápido até o ponto de ônibus e somente se sentiu segura quando estava dentro dele. Pensando no que tinha feito, no quanto estava magoada...E as explicações? Depois ela pensaria nelas. E para ele, com certeza. Ela ainda ouviu:

-Nunca mais faça isso viu!?

Para ela seria impossível prometer aquilo e se fez de surda para encerrar o assunto e de como se sentira ameaçada naquela discussão, durante a fuga...

Outra vez, fugiu de um ex-affer com o qual estava empolgada. Tudo parecia que caminhava bem, até que ele foi bem claro em afirmar que não queria assumir mais compromissos com ela porque a vida dele tenha tomado outros rumos...Nessa noite eles durmiram juntos. Ela chorou enquanto ele dormia e praticamente viu o dia nascer. Novamente: "Fugir ou não?Para que continuar com essa farsa de que está tudo bem, quando não estou? Chega de conveniências.Preciso ir."

Ela tomou uma ducha para acordar, pensar, tomar coragem quem sabe...Pegou a bolsa, abriu a porta de mais um apartamento, onde a chave já estava na porta, convidando-a a se retirar e ao descer as escadas deixou um recado para na portaria. Dessa vez não queria preocupações. Chorando, saiu andando até encontrar a rodoviária e pegou um ônibus de volta a sua cidade. Ela teve uma hora e meia para pensar no que fizera. E diferente da sua primeira fuga. Ela sentira que tinha sido o melhor para os dois. Enquanto ela voltava no ônibus, ele ligava enlouquecido e ela desligou celular. Depois falaria que estava, na medida do possível, bem.

Então ela voltou de suas lembranças e viu que estava em mais um dilema. Talvez mais sério dessa vez. O dia tinha sido de forte e agressivas discussões. Houveram momentos que ela passou que ambos iriam partir para a agressão física. Ela, mesmo sendo mulher, não temia. Um dos traços de sua personalidade era ser extremamente impetuosa. Nada, ou quase nada, a fazia temer. Embora fosse adepta do pacifismo. Contraditório não? Mas era como ela, contraditória. O quarto estava abafado, cheirava a bebida e era extremamente desorganizado, assim como toda a casa. Ela já estava pronta para fugir, com insônia, dores de cabeça... Não seria a primeira vez mesmo.

Sendo que dessa vez a tarefa complicou-se: onde estava a chave naquele caos? Horas procurando e nada. E se ele acordasse? Ela nunca tinha sido pega com a boca na butija. Ser pega, ter sua fuga interrompida para mais uma discussão sobre explicações era algo que ela não queria e nem consegueria. A ansiedade tomava conta dela quando finalmente encontrou não a chave mais um mólho delas: um chaveiro. E agora? O que ela faria? Qual era a chave para abrir a porta principal, o cadeado da grade principal e a garagem? Nossa! Isso levaria muito tempo. Ela não podia correr esse risco de ser pega.

Chaves entravam e saiam das portas. O frio da noite passava por sua espinha e se concentrava na barriga, mas ainda sim a tensão da situação não a fazia ter frio, mas muito calor. Depois de um certo tempo, que para ela parecia uma eternidade, ela conseguiu abrir a última porta daquela casa que tinha se tornado uma cela. A sua prisão de Alcatráz. Devolveu a chave ao balcão mais próximo da sala. Fechou o que podia e saiu andando muito depressa. Dessa vez ela fora para sua casa caminhando. Já era tarde da noite, mas pelo jeito não durara mais do que uma hora para chegar.

- O que houve? -sua colega de quarto.
- Nada


Ela fechou a porta de seu quarto, desligou novamente o maldito celular e se fechou dentro de si para fazer um balanço, para catar os pedaços, para colar o que restou da grande poparte que tornara-se sua vida. "Ufa! Mais uma bem sucedida. Estou em "terras" seguras, meu corpo está em terras seguras, minha sanidade está em terras seguras, pelo menos por hoje."


Um comentário:

  1. Nossa Thaisa, fiquei toda prosa com sua homenagem, saber que inspirei alguém é de uma felicidade impar! rs Muito obrigada! E, obrigada também por dizer que meus textos lembram Ligia Fagundes Telles, amo demais essa escritora! No meu rol de autoras amadas, reina ela, Clarice e Lya Luft, que tenho descoberto e amado mais a cada dia.
    Saber que minhas escritas lembram a prosa de uma escritora do porte da Ligia é um elogio tão grande que me sinto envaidecida.
    Beijos,

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