terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Amor, sexo, Jabor e Rita Lee


Embora tente uma pegada “afetiva”, o livro de Arnaldo Jabor “Amor é prosa, sexo é poesia: Crônicas afetivas”, ainda me parece muito engessado quanto a afetividade. Um dia ouvi que política também tem sentimento e achei até estranho quando ouvi, mas de fato, muita gente mata e morre em nome não só de política, mas porque a vê com fé, esperança, saudosismo, desencanto, fundamentalismo, razão de vida, existência, paixão, enfim e o que isso tem haver com aquilo?

O livro me parece um desengasgo muito mais ao sistema do que em relação a afetividade: parece mais política do que afeto. Não que esperasse algo romântico e alienado. Principalmente porque a retórica e a acidez do Jabor quando combinadas resvalam não só seu desencantamento com o mundo, seu lado melancólico, como seu direitismo disfarçado de esquerda. E sinceramente, para quem já disse um dia ter lutado pela esquerda, me parece que ele absorveu muito bem o estilo de vida burguês, interpretando um ex-revoltado do sistema.

Mas opiniões a parte, não podemos negar o brilhantismo com que ele combina algumas idéias. E se te derem limões, faça uma limonada. Por isso destaquei algumas partes interessantes do livro com as quais me identifico ou com algum conteúdo revoltante. Sempre tive vontade de ler “Amor é prosa, sexo é poesia: Crônicas afetivas”, por causa da música de Rita Lee de mesmo título. Na época até pensei que tinha sido o Jabor que tinha se inspirado na Lee, mas foi o contrário. Descobri no prefácio do livro que inspiração foi às avessas.

Uma pergunta que não quis calar ao terminar de lê-lo: Estaria o Jabor preso a primeira fase do Romantismo da Literatura brasileira, das Virgens dos Lábios de Mel, como em Iracema de José de Alencar? Paradoxal, não!? Lá vão alguns trechos:

I- SOBRE AMOR E SEXO X MERCADO E MODERNIDADE

“Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também tudo depende das posições adotadas” (2004: 32).

“O amor é o momento em que o impossível parece possível, onde o impalpável fica compreensivo...” “(...) Andamos com fome de beleza em tudo, na vida, na política, no sexo, por isso, o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver...” (2004: 11-12).

“A mulher quer ser possuída, mas só no sexo, tipo “me coma todinha”. Falam isso no motel para nos animar. O homem é pornográfico; a mulher é amorosa...A mulher quer ser possuída em sua abstração, em sua geografia mutante, a mulher quer ser descoberta pelos homens para se conhecer. Ela é uma paisagem que quer ser decifrada pelas mãos e bocas dos exploradores. As mulheres não sabem o que querem; o homem acho que sabe. O masculino é certo; o feminino é insolúvel...A mulher é metafísica; o homem é engenharia.” (2004: 17).

"(...) -Aliás, que que você tem contra as mulheres que barbeiam as partes?
- Nada...- respondo. - Acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas partes dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar...Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney...Lembram um sarneyzinho vertical nas modelos nuas" (2004: 35)


“...ela adentra gloriosamente o “aparelho” secreto do Partidão na rua Djalma Ulrich e, em meio a livros da Academia da União Soviética, sob um pôster de Lênin e uma reprodução de Girassóis de Van Gohn, “dera” para mim com amor e coragem. Foi um raio de triunfo em minha juventude. Lembro até hoje que, lá embaixo, na loja de discos, tocava o sucesso da época, “Chove chuva, chove sem parar..., com Jorge Ben (ou seria “Bicho do Mato”?). Não sei mas guardo até hoje aquela tarde mágica e revolucionária de 63, com música de Jorge ao fundo, com a mulher com quem vivi até 69, ano que ela resolveu abandonar por outro, quando o grande sucesso musical era de Jorge Bem: “Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza..., o que fazia esse jovem comuna chorar pelas ruas, ao ouvir seu nome nos rádios e nas esquinas...” (2004: 71).

“(...) Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem fruição, sem prazer, quantitativo. Antes tínhamos passado e futuro; agora tudo é um “enorme presente”, na expressão de Norman Mailer. E esse “enorme presente” nos faz boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que “não pára de não chegar”. Antes, tínhamos os velhos filmes em prento-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era o presente e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, de começo e fim, ficamos também sem presente. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos em pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção (2004: 74).

“O ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que “amamos”, temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção(...) O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar,(...)não tem mais a utilidade do sacrifício pelo “outro”. O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. (...)A publicidade devastou o amor falando na “gasolina que eu amo”, no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor não... O amor vive da incompletude e esse vazio justificativa a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos, mas ainda sim, ele busca uma grandeza – mesmo no crime do amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes. Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. (...)Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números – basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso que o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, parece um segredo religioso, uma saudável inexplicável de alguma coisa que existem “aquém”, antes da vida” (2004: 84-85).

“Somos livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, substituição do mérito pela fama. Não precisamos fazer ou saber de nada; basta aparecer. Se antes havia excesso de ideologias, hoje somos todos um bando de frívolos patetas, como crianças brincando no shopping. (...)” (2004: 94).

“Tenho engulhos de ver essa liberdade fetichizada que rola por aí, produto de mercado, ao ver êxtases volúveis de clubbers e punks de butique, livres dentro de um chiqueiro de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas, querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes do que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicones, sucessos sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja fazendo competição entre louras burras e Zeca Pagodinho jogando numa cilada, detesto bingo, pit bulls, balas perdidas, suspense sobre capítulo de crescimento, abomino a excessiva sexualização de tudo, com bombeiros sexy engatados em mulheres divididas entre piranhagem e peruíce, o sexo com competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento poético do êxtase? Repugna-me ver sorrisos luminosos de celebridades bregas, passo-de-ganso de manequim, saber quem come quem na Caras, mulher pensando feito homem, caçando namorados semanais, com essa liberdade vagabunda para nada, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo (...)enquanto os homens bombas explodem no Oriente e no Ocidente, não agüento mais cadáveres na Faixa de Gaza e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e trens sangrando em Madri, museu de Bilbao, museu evocando retorcido bombeiros, sem arte alguma para botar dentro, a não ser sinistras instilações com sangue de porco ou latinhas de cocô do artista, não agüento mais chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, gente afogada na Nove de Julho, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro dos pobres e destrói a religião negra da Bahia (...) Não agüento mais ver que a pior violência é o acostumamento com a violência, pois o mal se banaliza e vira um luxo burguês.” (2004: 112-113).

“Nunca as mulheres foram tão nuas quanto no Brasil: já expuseram o corpo, mucosas, vaginas, ânus. O que falta?(...)Sugerem uma mistura de menina e de vampira, de doçura com loucura e todas ostentam um falso tesão devorador. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem. Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com tentações os homens que as consomem. A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. Mas o que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiram depois de ferrari , armanis, ouros e sucessos; elas são o coroamento de um narcisismo yuppi, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens” (2004:140-141).

“A dificuldade de realizar esse sonho masculino é que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas, mas se elas pudessem expressar seus desejos, não estariam mais em revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namorados de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia (... )A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece “libertar” as mulheres . Ilusão á toa. A “libertação da mulher” numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionados numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso “mercado de liberdade”. É isso aí. E ao fechar esse texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século XXI? Será que fui apenas barrado no baile? ” (2004:142-143).

“Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tanto falar: o amor é algo “ feito um lampejo que surgiu no mundo/essa cor/essa mancha/que a mim chegou/de detrás de dezenas de milhares de manhãs / e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe ” (2004:161).

“O amor é uma tentativa de atingir o “ impossível”, se bem que o impossível é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love. Mas o fundo e inexplicável amor acontece quando você “cessa” por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é, e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de “compaixão” pelo nosso desamparo (2004:167-168).

“Nunca mais vou ser fraco de alma, inclusive porque eu estou fazendo musculação por dentro do corpo; por fora, eu já estou com uma potência de soco de um Volks de 80 quilômetros por hora, mas, por dentro, meus músculos da alma estão cada vez mais duros, meu coração mais seco, único caminho para o sucesso, como nos ensina a cara dos políticos na TV. Esta é a receita do sucesso: coração duro, num um pisco, nem um tremor de mão, nem um olhar aguado, nada. Eu quero mesmo ser pedra, aliás, eu quero ser uma ‘coisa’, eu queria ser uma ‘12’ de cano serrado ou uma espada de samurai” (2004:175).

II- FOBIAS e ETC

“...é apenas um bumbum brasileiro que um dia cairá, como o PT. (...)[O nosso gosto pela bunda] é herança do homossexualismo deslocado dos senhores portugueses diante das negras zulus das senzalas(...)[de]cabelo muito curto tipo “piãozinho” e encarrapichado na cabeça (2004: 32) [lembrem que o termo homossexualismo não é mais utilizado pela conotação a doença e sim homossexualidade, ou melhor, homoafetividade ou homoerotismo] ” (2004: 17).

“ (...)Não aguento (...) anúncios de celular que faz de tudo, até boquete (...)Dá-me repulsa e lágrimas,(...) casamento gay [Que é que é isso HEM?]” (2004:114).

“ Nessa época , em pleno delírio nacionalista do Getúlio no fim do Estado Novo, lançaram uma campanha para substituir a figura “imperialista” de Papai Noel por outros símbolos mais “coisas nossas”. Inventaram uma figura tropical que nunca colou : O Vovô Índio, um velho seminu com uma peninha na cabeça, que traria presentes para os “curumins”. Foi um fracasso total, numa época em que o cinema americano alardeava o Bing Crosby cantando “White Chirstmas” sem parar (2004: 101).

“(...)Depois, fui partindo para religião e dúvidas metafísicas sobre Deus, já maior, atanazando os padres do colégio: “Se Deus é bom, porque Ele cria um sujeito que irá para o inferno quando morrer?”. Nenhum padre me respondeu essa pergunta até hoje, mesmo falando em livre-arbítrio etc” (2004: 102).

“E esses mesmos padres nos diziam: “Cada vez que você se masturba, morrem milhões de pessoas que iam nascer. É um genocídio! E nós, além de pecado, sofríamos a vergonha de ser pequenos “hitlers”de banheiro . eu pensava: “Por que tanta onda sobre nossos pobres pitinhos, porque essa energia que sento em minha casa é feia, criminosa? Vivíamos ajoelhados em confessionários, ouvindo envergonhados a voz triste e o hálito do triste sacerdote nos sentenciando a dezenas de aves de ave-marias e padre-nossos” (...). Eu mesmo fui assediado por um padre famoso ( do qual muitos colegas meus da época se lembram) que era notório comedor de menininhos: ele fazia mágicas e teatrinhos para ser popular entre os meninos, e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei disso em confissão com outro padre, que mudou de assunto, como se fosse uma impressão minha, como se a pedofilia fosse uma prática necessária à manutenção do celibato, exatamente como os cardeais americanos estão fazendo hoje. O problema da igreja com o sexo leva-a a uma compreensão quebrada da vida, leva-a aceitar a AIDS, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores” [Estaria aí na biografia do Jabor sua homofobia?] (2004:117).

“Fico doido quando vejo a coisa mais feia de São Paulo nos postos de gasolina e nas oficinas. Adivinhem o quê? Aquele boneco imundo feito de câmaras de borracha, com uma maquininha de ar soprando ar dentro e que fica esperneando em frenesi incessante na beira das ruas (...) E celular com musiquinha?Você está no aeroporto e, súbito, a seu lado toca Jingle Bells ou Pour Elise no bolso de um babaca executivo. Por que não fazem um celular que apertem o saco do usuário? Ele daria um gritinho e gemeria baixinho: Alô? ” (2004:128).

“O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Ele têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome do pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha “profundidade” a esta supercialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”. Mas falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias – meus inimigos dirão: “Você tem tudo pra isso”. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro da personagem da Eça de Queiroz que dizia: “Como posso ser feliz se a Polônia sofre?” (2004:191).

“Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, negar. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis do sinal, não ver cadáveres na TV, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma rave sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer (...)” (2004:191).

JABOR, Arnaldo. Amor é Prosa, Sexo é Poesia: Crônicas Afetivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004

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