quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Meu percurso erótico até Marquês de Sade

René Magritte



I- O EROTISMO EM CARRARO

A primeira vez que li um livro erótico foi mais ou menos aos 14 anos quando tive caxumba e fiquei de cama. Como meu irmão era recém-nascido, tive que sair de casa hospedar-me na da minha avó Hitler até a minha recuperação.
Como já tinha lido tudo que tinha trazido de casa, foi lá que encontrei uns livros de bobeira que nem ela sabia do que tratavam já que ela não é muito afeita a leitura. Pois é, lá encontrei os livros de Adelaide Carraro. Resumindo sua obra: que bicha podre! Eu não sei quem era mais podre: ela que escreveu, eu que li ou minha parenta que comprou sua coleção quase inteira. Basicamente o livro narrava cenas inteira de sexo, onde se misturavam luxuria, poder e submissão. Vocês tinham que ver a cara da minha parenta quando minha avó disse que eu estava lendo os livros dela. Era uma cara de medo, espanto, tipo: “E agora Bial? O que é que eu faço me revelo e faço a advertência de que a leitura é imprópria para menores ou fico na intuca [já que fazia a pose de santa e casta]”? Adivinhem o que ela preferiu?
Um livro dessa autora sem nenhuma conotação sexual foi “O Estudante”, sua obra mais reconhecida que relatava o fato verídico do envolvimento de um jovem com as drogas. Imaginem as ironias da vida... No ano seguinte vi Adelaide Carraro na lista de paradidáticos da escola pensei: “Sim. Quem não te conhece que te compre...” Entretanto, não posso negar que me diverti muito lendo os livros dela. Acho que a curiosidade falava mais alto. Não se tratava apenas de tesão, mas principalmente de transgressão, ou pelo menos eu acho. Quando era que ia ter acesso a livros sujos como aquele, numa criação vitoriana, onde tudo é feio, sujo e pecaminoso? Eu lia e ria muito. E morria de medo também que alguém me pegasse com a “boca na botija” sobre o conteúdo daqueles livros...

II- O EROTISMO DAS REVISTAS

No primeiro ano do ensino médio incitei as meninas da minha sala a ver a Playboy em que Adriana Galisteu se depilava. Todos os meninos comentavam. Até que juntamos um grupão de meninas, negociei a revista com um dos meninos da sala e fomos todas para o vestiário que havia no banheiro das meninas. Lá estava a turma em peso, rindo e comentando. Ao sairmos do banheiro todos os meninos de nossa sala sabiam da história e ficaram no primeiro andar da escola dizendo que a gente estava fazendo “sabão”. Helloow!Se naquela época já nos era difícil encontrar uma revista de nu feminino, imagine masculino? Era quase impossível. Tudo bem. Levamos todas na esportiva porque era a sala em peso que estava no vestiário.
Quase aos vinte pedi para que meu namorado na época comprasse aquelas revistinhas japonesas, mangar erótico. Eu ganhei três porque eu não tinha nem coragem de comprar. Eu não sabia se meu riso era nervoso e, portanto, reativo ao meu desejo reprimido, mas confesso que porcos fazendo sexo com mulheres dominadas, para mim, ainda era estranho.
Depois disso eu mesma escrevia meus contos eróticos, mas cheio de romantismo, cenas de aventura, mas sem detalhes quanto à cena. Como eu era pudica... Depois de formada, aos 24 anos, foi que tive acesso a minha primeira revista de nu masculino, eu não sabia se olhava ou ficava ruborizada, enfim: vô ou não vô? Como era engraçado. E ensaiei ver um filme pornô, mas via com os olhos de uma cientista: Que coisa sem graça! De repente um entra e outro sai...Não dava para imaginar era muita “meteção”

III- O EROTISMO EM MARQUÊS DE SADE

O meu primeiro contato com Marquês de Sade foi por meio de um livro fruto de uma tese de doutoramento da UFRJ intitulado “Bruxas, Prostitutas e Donas de Casa”. O pesquisador fez uma pesquisa antropológica sobre a prostituição e no meio do livro havia gravuras de Sade, sobre as quais me contorcia para entender tamanho bacanal. Uma frase desse livro que nem ficha catalográfica tinha, apenas a referência sobre a tese de doutoramento na UFRJ, marcou-me: as donas de casa e as prostitutas possuem algo em comum. Enquanto as donas de casa dão aos seus maridos em hora marcada e de graça, as prostitutas dão por prazer, dinheiro, a qualquer hora e em qualquer lugar que assim desejarem
Em sequencia meu alvo foi o filme “Os Contos Proibidos de Marquês de Sade”, no qual se retrata um pouco da sua vida e obra marcada pelo erotismo, a libertinagem, o sadismo e a loucura desse ator. Já ali minha imaginação divagava...
Enfim, hoje aos 28, reencontro-me com o mesmo Marquês num livro. O gozo pleno, considerando-se que hoje sou bem menos pudica do que aos 14 ou aos 24 anos. Ao contrário da Carraro, ele usa o estilo erótico para falar sobre moral, política, religião e claro, sexo. E não tem nada mais excitante do que um mix dessas coisas, de teoria e prática, já que o livro revela-se um verdadeiro manual descritivo sobre posições e práticas sexuais, servido de algumas ilustrações de verdadeiros bacanais, bem como de um discurso revolucionário contra a religião e a moral que aprisiona a liberdade. Ulalá!
“Filosofia de Alcova” de Marquês de Sade é um livro baseado numa dissertação de mestrado em Filosofia pela universidade da USP e deixa mais do que claro um dito popular: “é preciso ser uma lady na sala e puta na cama”. Inclusive o mesmo autor por meio de uma de suas personagens trata a putaria como uma arte. Comentando com minhas amigas popularizamos para a arte da raparigagem...
Sade foi preso onze vezes, internado como louco e apresenta em seu sistema um escrita no qual romancismo erótico está atrelado à crueldade, à profanação e à violência. Considerado como um herdeiro da “libertinagem erudita” do século XVII, que precede e prepara a figura do filósofo iluminista, “Sade nos faz sonhar, a despeito de toda a crueldade. A essência desse “mal” é uma inversão de valores que visa, em última instância, transformar seu mundo em outro que ele acreditava melhor” (BORGES, 2003:218).
“Sua obra inteira é construída, seja para celebrar o prazer, seja para atacar tudo aquilo que de alguma forma se interpõe entre o indivíduo e sua felicidade. Nesse sentido, o que se vê em Filosofia na alcova é uma educação pelo avesso. Uma “deseducação” em que os costumes e a religião são desqualificados de suas funções seculares de tornar os indivíduos felizes. Não conseguiram, pensa Sade. Jamais conseguirão porque seus princípios estão assentados em bases falsas. Deus não existe e a virtude é uma quimera” (BORGES, 2003:215).
Pertecente a corrente filosófica simétrica e oposta ao sentimentalismo marcado pelas obras de Rosseau, na quais o homem nascia bom e o meio o corrompia, bem como o coração é o órgão dos sentimentos e das paixões, Sade era materialista e invocava um “retorno a natureza”: substituir por meio do discurso revolucionário substituir a justiça e a liberdade conquistados com a revolução francesa pelo despotismo da libertinagem. “Em Sade, razão e natureza andam juntas como, no outro extremo, no coração dos virtuosos, irmanam-se sensibilidade e religião” (BORGES, 2003:222). Seu objetivo era “fazer da palavra libertina um instrumento de transformação política onde o erotismo se torna o centro do poder e do desejo individual suas bases de sustentação” (BORGES, 2003:242).
O excesso, marca principal de suas ações, intenciona o desejo de excerde-se a si mesmo num desejo de transgressão permanente. A utopia de sua revolução impraticável, trazia à literatura sadeana a separação do real, a vingança no espaço de sua realidade absurda “(...) criando um mundo às avessas, como um espelho de imagens retorcidas em que, no entanto, o homem contrafeito parece belo, o gozo triunfa e a felicidade é possível” (BORGES, 2003:246).
Algumas citações do diálogo que Sade estabelece entre seus personagens:

“EUGÉNIE –(...) Mas por que tantos espelhos?
SAINT-ANGE – É para que repetindo as atitudes em mil sentidos diversos, multipliquem ao infinito os mesmos gozos aos olhos daqueles que desfrutam nesta otomana. Por este meio nenhuma das partes de um corpo ficará velada: é preciso deixar tudo à vista; são tantos grupos reunidos em volta daqueles quadros deliciosos com que sua lubricidade se embriaga e que servem em breve para completá-la” (SADE, 2003:30-31)”;

“EUGÉNIE –(...) O que entendes pela expressão puta?
SAINT-ANGE – Lindinha, chama-se deste modo às vítimas públicas do deboche dos homens, sempre prontas a se entregar ao temperamento deles ou ao seu interesse. São felizes e respeitáveis criaturas que a opinião difama, mas a volúpia coroa; e que bem mais necessária à sociedade do que as recatadas, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a consideração que esta sociedade ousa lhes trar injustamente. Vivam as que se sentem honradas como este título! Eis as mulheres verdadeiramente amáveis,as únicas filósofas de verdade! Quanto a mim, minha cara, que há doze anos trabalho para merecê-lo, asseguro-te que, longe de me escandalizar, ele muito me diverte. Ou melhor: adoro que me chamem assim quando me fodem. Esta ofensa ferve-me a cabeça” (SADE, 2003:36-371)”;


DOLMANCÉ –“(...) é do seio de uma puta judia e no meio de um chiqueiro que se anuncia o Deus que vai salvar a terra” (SADE, 2003: 40);

DOLMANCÉ –“(...) Palavras como vício e virtude só nos dão idéias puramente locais. Não existe nenhuma ação, por mais singular eu se possa supor, que seja verdadeiramente criminosa, e nenhuma que possa realmente se chamar virtuosa. Tudo se dá em razão dos nossos costumes e do clima em que vivemos” (SADE, 2003: 46);


SAINT-ANGE – (...) O destino de uma mulher é ser como a loba e a cadela, pertencer a todos os que a desejarem. É visivelmente ultrajar a destinação que a natureza impôs às mulheres, atando-as destinação que a natureza impôs às mulhere, atando-as pelo laço absurdo de um himeneu [casamento] solitário. (...) Que a moça se empenhe em encontrar uma boa amiga que, livre e na sociedade, possa fazê-la gozar secretamente os prazeres; na falta disso, que ela procure seduzir os Argos que a rodeiam; que lhes supliquem para a prostituírem prometendo-lhes em torça todo o dinheiro que puderem obter com sua vendam ou que esses Argos,eles mesmos, ou mulheres denominadas de alcoviteiras, preencham logo os propósitos da jovem. Que ela jogue poeira nos olhos de todos os que a cercam: irmãos, primos, amigos, parentes; que se entregue a todos, se necessário para encobrir sua conduta.” (SADE, 2003:48-49)”;

DOLMANCÉ–“(...) A imaginação é o aguilhão dos prazeres. Em gente dessa espécie, ela regula tudo, é o móvel de tudo; ora é por ela que gozamos? Não é dela que nos vem as volúpias mais picantes?”
SAINT-ANGE – (...) A imaginação nos serve quando temos o espírito absolutamente livre de preconceitos: basta apenas uma arrefecê-la. (...) Ela é inimiga da regra, idolátra da desordem e de tudo o que leva as cores do crime. Eis de onde vem a singular resposta de uma mulher de imaginação que fodia friamente com o marido: - “Por que tanto gelo?” – perguntou ele. – “Oh realmente,” – respondeu essa criatura singular, - por que PE muito simples o que fazes””. (SADE, 2003:61);

DOLMANCÉ –“ (...) Se a vossa Eugénie, entretanto, deseja algumas análises dos gostos do homem no ato da libertinagem para examiná-lo mais sumariamente, nó o reduziremos a três: sodomia, fantasias sacrílegas e gostos cruéis. A primeira dessas paixões é hoje universal. (...)Evitai o bidê ou limpar com pano quando acabardes de foder dessa forma: é bom que a brecha esteja sempre aberta; disso resultam desejos, titilações, que os cuidados com a limpeza imediatamente anulam”. (SADE, 2003:75;

“(...) Não nos contentemos em quebrar os cetros [Sade referindo-se a queda realeza e o período do Terror na França]; pulverizemos para sempre os ídolos(...)Sim cidadãos,a religião é incoerente com o sistema de liberdade; já o sentistes.(...) Deixemos de acrditar que a religião possa ser útil ao homem. Tenhamos boas leis, e passaremos bem sem a religião (SADE, 2003:130);

“ A ignorância e o medo, ainda direis a eles, são as duas bases de todas as religiões...”(SADE, 2003:134);
“(...) pois se a natureza nos dita igualmente vícios e virtudes devido a nossa organização, ou mais filosoficamente ainda, devido a necessidade que ela tem de ambos, o que ela nos inspira torna-se uma medida muito incerta para regrar com precisão o que é bem e o que é mal. (SADE, 2003:137);


“Quero que a elas também seja permitido, côo aos homens, o gozo de rodos os sexos e de todas as partes de seus corpos. Sob a cláusula especial de se entregarem do mesmo modo a todos os que a desejarem, que elas tenham a liberdade de gozar igualmente de todos aqueles que julgarem dignos de satisfazê-las” (SADE, 2003:152).


“Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado”(SADE, 2003:176)


“O ato de gozar é uma paixão que subordina todas as outras e que reúne todas ao mesmo tempo. Saber ouvir a natureza, portanto, é ouvir a si próprio. Que se ouça então o borbulhar do sangue, que se atenda aos apelos dos “espíritos animais”, estes agentes da luxúria fisiológicos da luxúria em sua irrefreável operação de gozo”. (BORGES, 2003:222).

Guardei uma última citação desse livro para tecer alguns breves comentários. Sem a pretensão de ser uma especialista na filosofia sadeana e tentando me desvencilhar de meus valores morais, acredito que aqui e acolá ele desliza num certo machismo, abrindo exceções de igualdade ao homem as mulheres libertinas. Sem contar que essa última citação de Sade corrobora o que o alemão Reich afirma em seu livro “Revolução Sexual”: ao estarmos cientes de que o ato sexual objetiva o prazer e não a procriação, a idéia de fidelidade embutida no casamento cai por terra e com ela a pretensa necessidade de manter não só essa instituição, o casmaento, como a propriedade privada, base do capitalismo.

“Jamais um ato de posse pode exercer-se sobre um ser livre. É tão injusto possuir exclusivamente uma mulher quanto possuir escravos. Todos os homens nascem livres, todos são iguais em direito; não devemos jamais perder de vista estes princípios. A partir disso, não se pode, pois, jamais conceder direito legítimo a um sexo de se apoderar exclusivamente do outro; e jamais um desses sexos o uma dessas classes poderá possuir o outro arbitrariamente. (...) E todos os laços que podem prender uma mulher a um homem, de qualquer espécie que podeis supô-los, são tão injustos quanto quiméricos” (SADE, 2003:149).

MARQUÊS DE SADE. A Filosofia na Alcova ou Os Preceptores Imorais. Tradução, posfácio e notas Contador Borges. 3 ed. São Paulo: Iluminuras, 2003. (Coleção Pérolas Furiosas)

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