sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O segredo das cordas


Ela estava na antisala esperando o médico. Abriu uma daquelas revistas femininas, que entre uma mulher perfeita e outra, mostra uma nova dieta ou produto revolucionário para que você tenha esperança de que um dia pode ser também perfeita e ter o mundo aos seus pés.

Numa manchete a palavra sexo chamou sua atenção: "Hum! Ver e imaginar uma sacanagenzinha é bom enquanto não se tem nada para fazer...". Entretanto, a reportagem - para variar do que usualmente se fala, como posições, "lugares mágicos" etc - era a de uma psicanalista falando sobre orgasmos: "A mulher muitas vezes não chega ao orgasmo com o parceiro como forma de se vingar dos maus tratos existentes na relação. É uma forma de fazer com que ele se sinta tão impotente quanto ela e de expô-lo a impotência a qual é submetida na relação de alguma e de várias formas ao mesmo tempo em que se vinga dele"

Xi! A quanto tempo ela não sabia o que era isso. O lugarzinho mágico dela tinha se tornado um verdadeiro forte nox e que, por azar, ninguém tinha a senha. Não que ela nunca tinha sentido a pressão de estar na lua, perder a cabeça e berrar a vida que existia dentro ela. E uma breve retrospectiva sobre o tema começou a passar pela cabeça: o sexo escondido, rapidinho e com medo de ser descoberta pelos pais. Ela se sentia quase que cometendo uma heresia. Quantas vezes aquela mulher de trinta anos aos dezessente se torturou mentalmente porque achava que pecava por palavras, atos e omissões...Quantas? Depois dessa fase, com um pouco mais de liberdade quando rolava o clima na casa de um amigo ou amiga tudo continuava rapidinho. Era o hábito. Ás vezes ela não sentia nada, outras um leve torpor, noutras algo que lhe arrebatava a alma, mas ela não tinha muitas fórmulas e explicações para descrever o que sentia. Nem muitas experiências. Até que um dia ela ouviu:

- Você tem que ir mais devagar. Vamos curtir mais. - o parceiro

Aquilo era uma verdadeira novidade porque quando ela queria gozar ela o fazia . Seja antes dele, junto com ele, mas era rápido porque parecia que o tesão iria simplesmente passar. Assim, de repente. Ou será que a culpa iria chegar de repente e acabar com o tesão?

Então, na segunda fase de sua vida dedicou-se a tentar não se culpar e a aprender. E mesmo diante de tantos esforços que quase sempre a faziam chorar, fossem por culpa, impotência ou inexperiência, ouviu uma pergunta cruel e destrutiva de quem mais amava:

- Tem certeza que você não é lésbica? Ou então, você é frígida.

Sendo uma pessoa defeituosa, como ele a fizera sentir, teria que contentar-se com aquele homem que a aceitaria com suas qualidades e defeitos. E que defeitos, hem!

E foi assim por muito tempo: sexo sem vontade, sexo sem orgasmo, sexo com torpor e de pequenas alegrias e lágrimas. Até que um dia ela foi enlaçada por um verdadeiro "Casa Nova".

A princípio ela achava que nada iria acontecer e que no primeiro encontro ela constataria sua filha "mecânica "com um especialista e ponto. Ela desafiou-se. E no primeiro encontro ela sentiu um calor que tomava o corpo dela como nunca sentira antes.

- Ainda não. - O Casa Nova

"Como ele não iria até o fim? Por quê a deixaria com água na boca? Ela sentia algo antes nunca sentido e que não sabia explicar ". Ela voltara do encontro aturdida: "E agora? O que deveria fazer? Ela precisava ir até o fim. Pagar pelas últimas consequências. Havia talvez a possibilidade de acabar com aquela falha mecânica pessoal e viver de uma forma melhor o seu relacionamento consigo e com que dedicara seu amor por um longo tempo. Um decisão traiçoeira e egoísta talvez, mas tudo iria passar". E sem pensar muito topou o próximo encontro. Ela estava completamente a mercê do Casa Nova. E ao provar do "mel" parecia que ela estava numa montanha russa, praticando rapel, roubando o museu do Louvre e tudo que fosse de mais profundo e adrenado na vida.

E era ali onde morava o perigo. Ela descobrira que não tinha nunhuma falha mecânica simplesmente porque O Casa Nova não esperava nada dela. Apenas ela, com toda calma e paciência, defeitos e qualidade. Ela simplesmente descobrira que não tinha sido tocada como que toca um verdadeiro violino Stradivarius. O que foi uma revolução para ela. E o amor transformou-se em rancor. E o desafio do Casa Nova transformou-se numa relação de verdadeiro aprendizado. E ela fora sua discípula e preferia morrer tocada por ele, mas tendo reconhecido o seu devido valor.

Algum tempo se passou. O Casa Nova seguiu os seus rumos, em busca de novas cordas a serem tocadas e ela aprendera como nunca que não era preciso querer arrancar uma nota. Apenas era preciso sentir o desejo alcançar a alma de quem é tocado e deslizar pelas cordas.

Ela transformou-se numa verdadeira especialista e com algum tempo ela sentia o que qualquer homem desejava e tocava as notas certas neles, não só do corpo, mas as da alma e da fantasia. Entretanto, a aridez de suas primeiras experiências a transformaram numa sommelier rigorosa. Nem todos a agradavam, portanto, quase nunca a tocavam e quando assim o faziam não alcançavam as notas certas. Embora ela o conseguisse neles.


Algo estranho acontecia dentro dela e nem mesmo ela sabia explicar. Perdera o desejo. Fundamental para acionar uma das chaves do forte que se formara. E o pior? Não se importava mais com isso, com esse não sentir.

E embora a vitória ao tocar as notas certas neles representasse a sua derrota, ainda sim se sentia vitoriosa. E ao deslizar da cama de cada um, fazia uma análise minuciosa do quão egoístas com seu próprio gozo eram, ou então, o quão inseguros encenavam uma falsa segurança dos quem sabem o que faz. E pensava no prazer que aquele Casa Nova não mais poderia lhe dar...Restaria a ela o destino cruel de discutir com alguns homens e consolá-los sobre sua virilidade e auto-estima sexual? O que ela achava particularmente um saco. Depois de feito, não há o que se discutir, ou lamentar. Para cada coisa, momentos.

De volta a cena do consultório seus pensamentos são interrompidos pela recepcionista:
- Senhora, sua vez.

Um comentário:

  1. Essa postagem me lembrou um filme, algo desse tipo.
    Muito legal!
    3 beijos e fortes abraços


    Quem será o próximo?

    ResponderExcluir

Queres aclarar, observar, deduzir, narrar despretenciosamene? Bem-vindo! Caso queiras apenas maliciosamente criticar, por acaso não é seu espaço, nem virtual...