sábado, 14 de fevereiro de 2009

Triângulos



"O telefone encontra-se desligado ou programado para não receber chamadas". Aquela mensagem da caixa postal a deixava ainda mais irritada. Ela buscava notícias da amiga que indicara para uma ótima oportunidade de emprego. Mas tentara várias vezes o celular e nada.

Como aquilo a inervava, mas por quê? Tudo bem, que ela queria que tudo desse certo e tal, mas havia algo mais. Afinal o interesse era muito mais de uma do que da outra. E ela começara a pesquisar na sua cabeça os porquês. E vira alguns que não queria se deparar: seria inveja de não ter aceitado a proposta por orgulho? Afinal, a pessoa que a propusera era uma fonte de angústias e questões mal resolvidas e que naquele momento descobrira que não estavam resolvidas. Ou por que ela tinha medo do dois, da traição? Ela descobrira dentro da sua cabeça que também nunca conseguira superar o fato de uma de suas melhores amigas tê-la traído com o seu próprio namorado. Estariam, então, os dois juntos?

A fantasia voava longe e ela imaginava novamente um triângulo amoroso. Mas que triângulo se não havia mais nada entre o dito ofertante e ela, apenas entre sua amiga e ela mesma? Não adiantava e cenas do passado vinham a sua cabaça. A ex-amiga, a traição, os ex envolvidos...

Ela tomara um ansiolítico e no final da noite finalmente conseguira falar com amiga, que nem imaginava o que se passava pela sua cabeça. E como o alívio foi imediato quando ela soube que tinha sido o namorado da amiga e não o "senhor causa mal resolvida" quem a ajudara a dar direcionamento as questões...

Ela sentira vergonha de si, de seus traumas, de sua baixa auto-estima, da sua sensação de que ninguém seria capaz de amá-la... E ao mesmo tempo a certeza de que não conseguiria estar com quem a proporcionasse esse tipo de impotência. Desligou o telefone, mas a cabeça não.

E ao dormir junto ao seu parceiro que tentava agradá-la, que nada sabia sobre o que tinha se passado, ante o sexo morno e impessoal, ao final pensara e chorara : "Não quero mais triângulos; Não quero mais beijos asfixiantes que querem tomar apenas minha carne como num ato mecânico e rápido; Não quero que me toquem; Não quero mais desejar...Acho que não consigo mais beijar, nem desejar". E uma lágrima escorrera do seu olho para o rosto de seu parceiro. E em meio a tantos livros e papéis daquele quarto de intelectual percebera o padrão das suas escolhas atreladas a muita inteligência e pouco tesão, ou muita inteligência e pouca sensibilidade:

- Choras? - o parceiro
- Não. - respondera enquanto ele se contentava com a resposta porque não tinha tempo ou não queria adentrar em chatices.

E ela ficara apenas com seu choro engasgado.

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