sexta-feira, 13 de março de 2009

Inversão de papéis

Os Amantes, René Magritte [1898-1967]



Parecia uma manhã comum de domingo, sem muitos desafios. O despertador toca como se já fosse a segunda-feira. O cachorro fora da casa bate no portão sem parar, anunciando que já é hora de acordar. A claridade insiste em entrar pelas frestas da janela, incomodando aos olhos que ainda dormiam.




O movimento de desligar o despertador, prender o cachorro e fechar ainda mais a janela somente fez com que os olhos despertassem ainda mais, mesmo que a noite tenha sido muito curta. Planos simples para o domingo começavam a se desbotar: ver um filme, ter um almoço improvisado, soltar pipa...quem sabe?




Mas tudo foi-se por terra. Bastou uma simples negativa a uma dessas propostas desbotadas de domingo que o mundo desabou e avalanche culminou com uma discussão de relação...




- Você não gosta mais de mim...Eu sempre fico em segundo plano...Você não faz a menor força para estar comigo, para ter tesão por mim...você é muito egoísta. Agora fuja como você sempre faz! Ou então diga que acabou mais uma vez, até que você volte depois de um mês de abandono sem saber o que quer da sua vida...




- Eu não tenho vontade de mais nada. Eu não desejo mais nada, nem de você, nem de ninguém.




- Tudo bem. Eu sabia que eu não devia ter tocado nesse assunto, nós, porque as coisas sempre são como você quer, não é?




- Tudo bem fico aqui, trancada nessa jaula. Dessa vez não fugirei. - ela disse referindo-se ao quarto enquanto ele saia do mesmo furioso.




Nas últimas palavras dele, a incapacidade de ouvir o grito suprimido de socorro. A raiva dela de si versus a raiva dele por ela e sua incapacidade de continuar a amá-lo. Mas o que é amar? "Amar não é amar o desejo do outro?". E como amar alguém sem desejo? Ou melhor, como amar a falta de desejo? Seria o outro que substituiria essa falta de desejo. O outro que ser ou ter esse lugar da falta. Querer ser o lugar da falta, seria a parte querendo se apropriar do todo? Querer ser o desejo, a falta, seria também um projeto megalómano do outro?




Enfim, em meio a guerra de sentimentos e vontades opostas, ela abre a gaveta da cabeceira pega a arma dele decidida a acabar com seu próprio sofrimento. Ele entra no quarto e toma-a dela. Ela chora, grita a sua incapacidade, até que ele sai novamente do quarto chamando-a de "covarde egoísta". Ela fecha a porta do quarto para não mais vê-lo. Ele chuta a porta vezes consecutivas até arrombá-la.




- Bonito isso. Olha o que você me fez fazer - ele.




O grito de socorro dela era cada vez mais abafado. Ela em meios as lágrimas levantou-se pegou uma cerveja na geladeira e fez um coquetel com todos os remédios da farmacinha do banheiro, entre eles, alguns sedativos.




Ao vê-la fazer isso, imediatamente ele toma a bebida e tenta arrancar da boca dela o que havia engolido sem muito sucesso. Então, enquanto ela debatia-se contra ele e impedia-o, ela caia no chão entre um canto da parede e a cama. Sem querer ele a queima com o cigarro durante o gladiamento. Ela sente somente a dor da sua alma e de cobranças que não consegue pagar.




- Vou levá-la para um médico. Você não podia ter feito isso comigo. Por que você não faz isso na casa da sua família? Quer que eu me sinta culpado, não é? Olha como estou. Cheio de marcas suas. Eu podia prestar queixa na polícia você sabia?- ele a acusa.




Ante a frustração de sua tentativa fracassada de suicídio, não querendo prolongar o assunto e ansiando acabar com maior repercurssão dos fatos, ela mente e diz que não havia muitos remédios.




O silêncio se abate sobre o quarto. E ele num misto de raiva e paixão doentia junto a ela - exausta dela mesma, dela, da vida, de tudo - de repente se arrisca:




- Eu amo muito você e quero vê-la bem, mas você já percebeu que para você ficar bem precisa estar longe de mim.




Charada solucionada, na cama ela vira-se sem quebrar o silêncio e adormesse ante o cansaço da discussão, algum efeito dos sedativos e pensando na próxima briga, momento em que ele iria jogar na cara dela as marcas deixadas no corpo dele ao descompensar e quando tentou se matar. Momento em que novamente a dor dela, curtida em silêncio, seria menor do que o desejo dele de tê-la de qualquer modo e somente para ele.






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