sábado, 14 de março de 2009

Tecido Memória


Esse foi o nome do documentário que assisti essa semana na UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) produzido pelo Prof. Dr. Sérgio Leite da UFPE.


Para o espectador, uma reconstituição da história de Paulista, Pernambuco, a partir da trajetória de vida e das memórias dos ex-trabalhadores da indústria de tecido da cidade de Paulista. Reafirmando que a memória possui não só aspectos subjetivos, mas também faz parte de uma construção histórico-social.
Um documentário que buscou compreender como os trabalhadores o contexto da revolução industrial e da expansão da produção do algodão no nordeste influenciou esse Estado e a vida das pessoas que vieram fazer suas vidas em torno desse novo projeto não só econômico como principalmente de sociabilidade, presente no cotidiano e, portanto, indissociáveis.


No documentário podemos observar vários aspectos dessa história, desde a sociabilidade já mencionada até o uso da mão-de-obra infantil, bem como a figura do coronel se impondo num ritmo de expansão econômica típico das fábricas e não das antigas usinas de açúcar, a configuração da afetividade desses trabalhadores a partir da existência desse trabalho indigno, mas que permitia ao mesmo tempo a sobrevivência e trazia elementos tão presentes ainda hoje na nossa cotidianidade, a política do "pão e circo", promovida pelos coronéis, donos das fábricas de algodão.


A cidade de Paulista em Pernambuco, era a "Serra Pelada" têxtil do algodão, o Paraíso do chafariz de Leite e da Montanha de Cuscuz, uma história influenciada pelo contexto internacional e nacional, inclusive em suas rupturas e desrupturas, no que diz respeito as influencias do movimento socialista e comunista para os movimentos grevistas, que de certa forma criam um movimento e não só o analisaram; o governo populista de Getúlio para os trabalhadores, de quem quem não tem a carteira de trabalho assina era um "condestino", uma mistura de condenado com Clandestino - típica da condensação discursiva apontada por teóricos como Foucault - e o golpe de 64.


Enfim, o documentário mostra a partir de uma pesquisa encerrada em 83, como todas as dimensões da vida humana (econômica, política, cultural, afetiva e social) podem configurar a vida de indivíduos ao mesmo tempo em que eles também não apenas reproduzem, mas produzem seus próprios destinos, os quais são regulados,a dministrados e/ou organizados em função de um objetivo, como em instituições totais. No caso em particular, a manipulação da vida e dos sonhos de indivíduos em nome do crescimento da indústria têxtil, tentando o tempo todo persuadir não só apenas pelo dinheiro, "qual era o lugar de cada um". Afinal a dominação não apresenta apenas seus efeitos ruins, de algum modo a internalização do controle traz suas recompensas, mesmo quando o indivíduo reavalie a situação e entra em conflito com tal dominação. E isso me lembra o que um colega disse, se não estou enganada sobre o pensador Italo Calvino: há apenas duas maneiras de escapar do inferno, ou confundido-se com ele, ou então, encontrando ou construindo um paraíso dentro dele.

Um comentário:

Queres aclarar, observar, deduzir, narrar despretenciosamene? Bem-vindo! Caso queiras apenas maliciosamente criticar, por acaso não é seu espaço, nem virtual...