sábado, 11 de abril de 2009

De médico e louco todo mundo tem um pouco


Campo de trigo com corvos (detalhe), Auvers, julho de 1890, van Gogh, Ost, 50,5 x 100,5 cm, Amsterdam, Rijksmuseum Vincent van Gogh


A frase celebre que dá título a essa postagem é do livro "O Alienista". Eu, particularmente, o li quando no terceiro ano do ensino médio e achei muito divertido: as artimanhas de um louco que acaba convencendo seu médico dos seus argumentos. Só poderia ser de Machado mesmo...Naquela época nem eu sabia quão perto os "loucos" estariam de mim. Mas louco é um verbete usado desde a idade média e carrega consigo a história da loucura e seus maus-tratos, ante o que parecia inexplicável, uma aberração, as quais deveriam ser queimadas, amarradas, eletrocultadas, enfim...
Na contemporaneidade para retirar o peso dessa história, se é que isso é possível, o termo é substituído por psicótico, comum nas rodas de quem trabalha com essa realidade, mas ainda não tão popularizado para quem está fora dela. Por isso, venho achado cada vez mais brilhante como a autora da novela de "Caminho das Índias" vem abordando esse tema e principalmente como o ator, Bruno Gagliasso, o Tarso, vem atuando. Saimos do polo da novela para encher linguiça e alienar para o outro, que é dar a devida importância a um tema que é ainda tratado com preconceito e medo. Sem contar que parece que o ator Gagliasso fez um laboratório e tanto para compor o personagem e que a peça teatral sobre "Vincent van Gogh" deve ter trazido importantes contribuições para esse personagem.
O "louco" não é apenas aquele pobre, negro, como o Ademir, fruto das adversidades da vida, mas pode ser rico e de olhos azuis e ter tido uma vida quase perfeita...Não há ainda um consenso o que é que faz uma pessoa perder esse senso da realidade, que como a novela bem tenta mostrar, é momentâneo e não uma constante. Ou seja, dependendo do nível de comprometimento da doença mental, do apoio que recebe e quando recebe, "o curso do rio pode mudar"... Eles são capazes de amar, dançar e qualquer outra coisa que queiram, com algumas limitações é claro, como em situações de intensa pressão, muitas vezes responsáveis pelo surto psicótico, popularmente conhecido como ataque de nervos.
O processo através do qual a autora ao mesmo tempo mostra a loucura de Ademir junto ao núcleo de uma mãe empenhada, da insatisfação e da vergonha de um irmão mais novo, do excelente dançarino que é da estudantina e do medo da loucura da parceira de dança Suelen, contrasta com o processo gradativo de fragmentação do eu de Tarso, do seu não reconhecimento de si como sendo alguém, com um tique no dedo, o andar apressado, o olhar esbugalhado, os sentimentos persecutórios, as vozes compondo o quadro de alucinação audio-visual.
O corte da capacidade do indivíduo distinguir a realidade da imaginação pode acontecer por qualquer motivo, em qualquer idade, sob qualquer situação. Há estudos que apontam para origens genéticas, mas o mais importante é como reestabelecer esse contato do indivíduo com a realidade, como o Ademir faz ao se sentir importante e satisfeito ao dançar e mexer com computadores, ou então, a presença da namorada Tônia que escuta e acarinha o namorado, dando força e confiança.
Torna-se cada vez mais importante que o "louco" saia dessa figura esteriótipada de terror, de ameaça, de descontrole, de inconveniente, de alguém que causa vergonha para a família e os amigos, para colocá-lo no registro do ser humano com suas complexidades e limites. Afinal qualquer um pode ter um momento de surto psicótico e não torna-se psicótico, ou melhor, pode ter um momento de descompensação e não ser um eterno psicótico. Quem não já se viu fora de si, ou com vontade de matar ou morrer, ou vendo fantasmas em casas, dando explicações ilógicas para situações, ou alimentando certas manias de organização, limpeza, padrão estético da casa e de pessoas? Enfim...
O Doutor Castanho, interpretado por Estênio García, é um exemplo de um pouco dessa "loucura" socialmente aceita, como com o ritual do tapete para entrar no consultório ou manter os copos organizados na mesa de bar. O personagem do Garcia lembra-me um pouco engraçadíssimo filme na mesma temática, "Melhor É Impossível ", com Jack Nicholson.
A medicação e a negação da doença são dois outros pontos importantes dessa novela. O diagnosticado como psicótico jamais poderá deixar de tomar remédios controlados (como nome já diz não é porque a pessoa é doida, mas porque exige um controle de horários e doses, assim como remédio para pressão, para diabetes etc). A resistência em tomá-los muitas vezes está muito mais relacionado a admitir-se como um depende de algo. Mas não somos todos dependentes de algo? De carinho, atenção, dinheiro, amor, chocolate (hehehe)...Temos que aceitar nossas limitações e saber conviver com elas. Ok! Muitas vezes o sofrimento do remédio está relacionado as combinações medicamentórias para precisar melhor o quadro dos sintomas da doença mental, então, como somos seres complexos, a medicação entra nessa mesma dança: vai um, entra outro junto com outro, sem aquele...Mas é assim mesmo. Sem contar que quando tudo vai bem, corta-se a medicação porque fantasia-se a cura, finalmente. Até que cesse por completo o efeito da próxima dose.
Já em relação a negação, fiquei fascinada como a família, no caso a do personagem Tarso, prefere fingir que nada está acontecendo, que tudo é passageiro e que no último capítulo, é melhor ter um drogado em casa do que um louco. Por analogia idiota "antes ladrão do que gay"...O ser humano é tolo mesmo né?
Todos nós mantemos sem perceber certos rituais de "loucura saudável" para fazer higiene mental dentro de uma sociedade esquizofrênica como a nossa, na qual não se tem tempo para amar, para pensar, para descansar, na qual não se faz aquilo que se deseja porque há normas e convenções familiares e sociais. O problema é quando caímos no excesso das manias.
Eu, por exemplo, tenho um ataque de nervos se sair de casa sem brincos e rímel incolor nas sobrancelhas. Prefiro esquecer a calcinha. Gasto horrores para manter meu cabelo domado. Sim porque essa moda de lisão-lisão não é a minha, então sofro para manter minha identidade latina cacheada ou algo parecido. Sem falar que adoro cheiros, bolsas e quinquilharias coloridas, artesanais e sempre ando com um livro dentro da bolsa porque me sinto mais segura ante o tédio inesperado e ando também para o lado de dentro da calçada com medo que os carros subam na calçada e me matem. Super-lotação de lugares me apavoram, injustiça social me deprime mesmo, adoro raspar panelas, não sobrevivo sem meu primeiro copo d'água pela manhã, às vezes sonho com princípes encantados e só encontro sapos "Bob Marleis", choro com propagandas e filmes, sumo quando estou com problemas, quase sempre sou um tanto anti-social, gosto de me programar antes de fazer as coisas, o "de repente" me assusta, mas eu faço (hehehe)...Em guerra "armada" entro para matar e para morrer, em algumas situações fujo mesmo com medo de ficar "loca-loca"...
Olha aí tá vendo? Ai meu Deus! Será que saí do limite da realidade e ao invés do Doutor Castanho, sou o Ademir, sim porque o Tarso é um louco lindo e rico né? Coisa que não sou, ai ai ai, como a vida é dura até nissso... [kkkk].



2 comentários:

  1. Incrível, como substimamos as pessoas, essa de que todo mundo é normal, não existe. Quem nunca saiu do salto? Quem nunca gritou pra todo mundo ouvir? Quem nunca fez uma loucura qualquer? Nossa são tantas indagações, superamos todas. Ual, esse mundo é mesmo louco.

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  2. Sensacional!!!!!!Fiquei LOUCO de entusiasmo ao ler sua publicação,pois me fez me sentir mais Louco ainda no que tange à : "loucura saudável"!!!
    essa Publicação é de 2009,não sei se vc ainda esta em atividade mais deixarei meu Msn:
    squarebuilt@hotmail.com

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