domingo, 10 de maio de 2009

Game over


"Que roubada!" . Foi a primeira coisa que pensou ao acordar novamente ao lado daquele homem. Não havia nenhuma justificativa razoável para explicar aquela situação...Afinal como boa obsessiva que era, o seu "porto seguro emocional" tinha um padrão. O dela era racionalizar as coisas que aconteciam e sentia. Tudo tinha uma explicação lógica. Bastava encontrá-las. Até o seu romantismo era plantado com os pés no chão e não feito de "nuvens cor de rosa".

Ela não acreditava em princípes encantados e nem mesmo naquele homem que estava ao seu lado poderia ser um. O desleixo, a rudez de suas palavras e de suas ideias combinavam com o cheiro nauseabundo do seu suor, que ela mesma não suportava.

Muito menos se tratava do medo de estar só, pois a muito tempo ela o havia superado. Primeiro porque mesmo com ele, sentia-se sozinha. Segundo porque sentia-se melhor sozinha do que quando com ele. Cumplicidade era algo que ele não compreendia. Para ele havia apenas um buraco vazio a ser evitado e o qual temia de forma inexplicável e até pavorosa.

Comodismo dela então? Que nada. Ela sentia-se inquieta demais, inconformada demais, para acomodar-se a algo que a muito desagradava.

"Uma farsa". Era isso que ela tinha arranjado para si mesma. Na busca de suas explicações sem fim, teria arquitetado uma nova teoria que apenas a permitia viver aquela situação que a fazia girar em círculos: estar ao lado daquele homem que nem ao menos sentia tesão. Era isso. Usou em si, então, uma tao de "psicologia às avessas". E ao invés de expulsá-lo como sempre fazia sob a segurança de justificativas aparentemente plausíveis, como a falta de afinidades e interesses, aproximou-se para realmente entender o que ela não queria entender . Na verdade não se tratava de querer entender, mas de viver novamente aquele "chove não molha" sob a égide de que havia um objetivo racional para isso.


"Como nos pregamos peças. E querendo ser esperta fui mais uma vez idiota ou inocente".
Mostramos aos outros exatamente o contrário do que realmente somos".

Mas aquela manhã teria sido diferente. Mais do que a sensação de frustração e arrependimento, ela conseguiu finalmente entender o que ele queria dizer com: " O que você quer?". Ela sempre entendia como o que ela esperava da vida, o que queria dele...Nessa manhã, no entanto, entendera que não bastava apenas ter uma boa resposta para a pergunta que ele teimava em colocar como sendo dela. E sim fazer uma boa pergunta, uma verdadeira pergunta para si: o que ela queria provar para ele? E provando para ele, o que é que queria? O que estaria provando para si mesma? Ou melhor, provar algo mudaria em que a vida dela? O que ganharia com isso, ou no que sua vida mudaria?

Foi então que ela descobriu que no seu jogo obsessivo de provar quais eram as respostas , ela tinha esquecido de fazer uma boa pergunta para si, uma pergunta coerente: o que estaria provando para si insistindo naquele andar em círculo? Entendido isso, nada mais importava. Nem mesmo aquele jogo obsessivo de provas.

Nem príncipes, nem solidão, nem comodismo. Apenas obsessão pelas provas para se refugiar na falsa sensação de liberdade. No entanto, antes de provar qualquer coisa, saber que era esse o significado que ela dava a ele e aquela relação foi o denotador da real chave de sua liberdade. Não queria provas, elas não bastariam ao final de tudo.
"Game over!"

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