domingo, 19 de julho de 2009

Na morada das palavras


"Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram...Mas pela astúcica que têm certas coisas passadas de fazer balacê, de se remexer dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, uns com os outros acho que se misturan (...) Contar seguido,alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice. Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vidade acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem, certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, princípio, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro. Talvez seja esse o jeito de escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem.

(Guimarães Rosa: Apud Rubem Alves. Na morada das palavras. Campinas: Papirus, 2003. p.139

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