domingo, 18 de outubro de 2009

Explicações


René Magritte

Como num conto de fadas. Um noivo maravilhoso, um apartamento só "deles", uma aliança e felicidade para dar e vender...Na medida em que a relação ganhava formas, assim também ganhava formas a intimidade e a seriedade do relacionamento dos dois. Não pensavam no histórico dele: uma separação e ex-namoradas. Tudo parecia perfeito. Trabalhavam juntos, viajavam juntos...contato total por telefone quando um se separava do outro. Parecia que um perdia o pedaço do outro nessas ocasiões inevitáveis.

A casinha que abrigava aquele amor era aos poucos ainda mais cultivava. Ele precisou viajar e dessa vez a convenceu que não seria bom para ela e que ficasse ali, naquele lugar, cultivando o amor e a espera dele, seu amado. Convencida e feliz. Essa viagem foi sucedida de vários telefonemas e vários presentinhos que a deixavam ainda mais "fofa" de felicidade. Até que um dia suspeitas, talvez um pouco improváveis diante de tanto amor, começaram não só a surgir na cabecinha dela como apresentavam vestígios.

Uma cama desarrumada no meio da tarde só veio a atiçar as suspeitas de um outro dia que uma colega de trabalho desceu do elevador e deu de cara com ela:

- O que é que você está fazendo aqui?
- Eu? Vim buscar um livro seu emprestado.
- Mas eu não moro aqui!

E rapidamente a colega se esgueirou para fora do rol do apartamento enquanto ele descia as escadas. Com um sinal ela indicou que ele as subisse novamente. No apartamento todo um interrogatório onde ele a fazia se sentir ainda mais paranóica. Mas a desculpa que ele deu não se encaixava com a dela. Desse dia em dia faltavam apenas mais alguns dias e provas porque nenhum crime é perfeito.

E num outro dia enquanto estava só no apartamento e ele fazia uma viagem rápida, lá estava na gaveta: as fotos da viagem que ela não foi junto com ele, mas com a colega de trabalho. Essa era a prova. Em meio a tantos telefonemas de amor era com ela que ele estava dissimulando...

A noite da descoberta foi longa e regada a duas garrafas de vinho e cigarro. Ao chegar logo cedo, ela notificou:
- Temos que conversar.
E nessa conversa ela jogou na cara dele as provas daquela traição. Como assim? Na cama dela, na casa dela, no trabalho deles...Era demais.

- Naquela gaveta eu não encontrei apenas as fotos da sua traição, mas o meu atestado de sanidade mental, o da sua ex-esposa e namorada.

Imediatamente ela pediu demissão, mas não deixou de ir ao último evento do ano do trabalho, aonde estariam reunidos todos os colegas, inclusive ela, a outra. Uma mulher casada, com um filho pequeno, que a torturava nas reuniões de trabalho, que fazia com que todos rissem dela porque não sabia de tamanha traição e que fez, por fim, questão de plantar a prova das fotos no apartamento deles.

Ela estava impecável ao lado dele. Apenas espreitando o clima de suspense no ar: será que ela se vingaria? Será que ela entregaria ao marido da outra as fotos comprometedoras?

Mas não. Ela preferiu o deleite de vê-la contorcendo e escondendo-se do raio de visão dela por toda a festa. Depois disso, o tempo se passou e algo havia quebrado. Eles ainda passavam às noites juntos enquanto ela se recompunha do golpe da traição, do sonhos despedaçados. Mas cada noite ficava mais curta porque simplesmente no meio dela ia embora. Deixando uma imensa cama vazia. E a certeza cada vez maior e mais contundente que ele acordaria cada dia a mais sem ela, sem a sua presença, junto com o vazio e sem ninguém para adorar o seu narcisismo.

Meses depois se separaram definitivamente. Ela quase inteira. Ele caminhando com sua vida do jeito que sabia. E a outra. Essa? Essa foi deixada algum tempo depois por ele mesmo e por causa de outra que aparecera. Enquanto isso aqueles mesmos colegas de trabalho, que viram sua glória e ascensão, naqueles últimos momentos viam uma mulher estrebuchando de dor e esgueirando-se pelos corredores porque além de ser a profissional que trabalhava com aquele homem, motivo das fofocas daquele setor, também era a mulher casada e abandonada pelo amante, cumprindo para finalizar o propósito a que veio: ser apenas mais uma e a ponta da vaidade daquele homem tão encantador.

Um comentário:

  1. Sempre soube da sua capacidade de abstrair "histórias". Parabéns pelo conto. Judy

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