terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Letra sem som e história sem fim


Era tão difícil para ela que o choro brotava de suas entranhas como um urro de dor e agonia. Era com um imenso vazio e sem energias para viver que desligara o telefone, enquanto deslizava pelo canto vazio do quarto. Como que se esvaindo. Perdida. Vulnerável e principalmente agredida... Não pelo adeus. Não pela batalha perdida. Não pelas trocas mútuas de farpas. Mas talvez pelas indagações que invadiam aos volumes sua cabeça: por quê? Por que tinha que ser assim, daquela forma?

Sensação tamanha ela somente sentira quando levou sua primeira bofetada. Quando ficou exatamente do mesmo jeito como com o telefonema virulento: com um animal disposta a atacar e a correr. Acuada num canto, perplexa, com medo, rezando para que tudo terminasse e logo.

“-Acabe logo com isso!”– era o que ressoava em sua cabeça.

E seguida aos ecos dessa frase, suscitava-se outro momento. A imagem de sua meninice quando seu padrasto achara seu diário e sutilmente a convenceu deixá-lo ler. Era o diário a única prova de sua inocência e redenção: para si e por si mesma.

Ele a induziu que rasgasse porque ninguém precisava ficar sabendo “daquilo”. Era um segredo dos dois e ninguém mais poderia saber.

“- É isso o que você quer? Que muitas pessoas fiquem chateadas e machucadas com você?”.

Apesar de estar novamente acuada, não era mais aquela menina. Ela tinha como se defender. E estava disposta a pagar qualquer preço, menos o do silêncio, o da cumplicidade covarde e o da submissão. A boca e a mão não seriam mais silenciadas, nem secretamente amordaçadas, seja pelo passado, seja pelo então agora “direto do cantinho do silêncio e dos seus segredos”.

Um comentário:

  1. Nossaaaaaaaa!!! Muito bem escrito, a dor chegou a gritar em mim também. Parabéns!

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