domingo, 17 de janeiro de 2010

Anônimos e anonimatos


Desde criança ouvia falar sobre cartas anônimas. "Não se deve dar importância a esse tipo de expediente." "Ah! São pessoas que não tem o que fazer e fica se ocupando da vida dos outros". O denunciante geralmente traz a tona algum segredo, inventa qualquer estória escabrosa ou ainda somente esculhaba a pessoa, motivado pela inveja.

Parafraseando às avessas, quem nunca recebeu cartas de amor, ou melhor anônimas. Eu já . E é horrível. Chorei feito uma Madalena arrependida porque era daquelas estórias que você leva a fama sem deitar na cama? Pois é. E logo eu que detesto um mexerico. Enfim, passado o impacto mandei todo mundo pra porra e ponto.

Entretanto, tenho me apercebido ultimamente que existem outras formas de anonimatos. Quantas vezes ri para não chorar. Me contive, me escondi, quis passar desarpercebida, ser anônima. Então, o anonimato não é tão vilão assim, não é verdade? Inclusive já tiraram uma foto minha segundos depois de ter chorado cascatas inteiras. E não é que na foto saiu um belo sorriso. Acho que é a foto mais bonita que tenho sorrindo. Minhas amigas começaram a mungangar pra me ver melhor e daí saiu. E quantas fotos existem nos orkuts na vida de risos e risos, momentos felizes, quando na verdade tratam-se apenas de esconder o que está lá no íntimo. Você numa tentativa de convencer a você mesmo: "Está tudo bem. Vai passar. Vou ficar bem" Entretanto, infelizmente, existem coisas mais forte, como no conto da formiguinha e a neve.

Nessa linha de investigação sobre o anonimato, existe um anônimo visitando o meu blog. Por que não se identifica? Não sei. Algumas pessoas já visitaram meu blog que também não conhecia e diziam em que página podia ser localizadas e tal...Mas esse é diferente.

Nunca me incomodou. Sempre deixa comentários elogiosos sobre as postagens desse espaço, mas teve uma que me deixou particularmente intrigada. Uma postagem chamada "Duas mulheres e um destino", que como sempre, misturam fantasia, ficção, realidade, coisas que escuto, que sinto, que imagino, ou seja, nem tudo é verdade e às vezes é. O engraçado é que usei a palavra arquiinimiga para descrever a relação entre essas duas personagens. E o anônimo comentou:

"Gosto muito dos textos deste blog... Leio-os, inclusive, com frequencia, embora nunca os tenha comentado antes...Todavia, ao ler este texto, me espantei ao constatar que vc possui uma arquiinimiga...Como assim uma aquiinimiga?! Isso é coisa de gente pequena, que tem medo de viver e encarar a vida...Se existe uma pessoa, que por algum problema no passado, causa tanto estardalhaço em suas atitudes e emoções acaba demonstrando a nós, leitores, que vc é pequena de sentimentos...Que não é capaz de esquecer ou perdoar... O tempo existe para que nós amadureçamos e possamos crescer com erros cometidos por outros e por nós mesmos...E não para deixar que sentimentos pequenos continuem abalando nossas vidas..."

Como assim Bial? Nos marcadores há a opção conto. Portanto, não quer dizer que necessariamente trata-se de mim. Pode ser o sentimento de uma outra pessoa, um sentimento do passado. E mais: faz muito tempo que quis deixar de ser heroína da minha vida real, ter sempre sentimentos nobres, o tempo todo, e me martirizar quando desejava que "aquele filho da puta qualquer", que me ferrou por algum motivo, levasse pelo menos uma topada.

Bem, felizmente ou infelizmente não sou boa de vilania e não curto energias e nem sentimentos pesados. Portanto, o que aprendi é que alguns sentimentos são passageiros, humanos e que apenas não devemos nos apegar a ele como numa repetição neurótica e paranóica porque senão a vida não anda. Na verdade acabamos gozando na dor, sendo sadomasos. Fiquei agradecida pelos
conselhos do colega anônimo, embora acredite cada vez menos em pessoas não maniqueístas porque é o bem e o mal que nos faz cotidianamente e nas coisas mais simples. E como diz o poeta francês Boudelaire, todos somos vítimas e carrascos de nós mesmos. Mas que bom que minhas palavras fictícias andam embarcando na imaginação das pessoas a ponto de acreditarem que saem do papel e ganham vida e verdade.

Uma escritora anônima que encontra uma pessoa anônima que conversam anonimamente sobre um assunto anônimo
. Nem sempre somos tão visíveis como aparentamos. Engraçado.

Comments:

Jad: Curiosa? É um conto de uma cena que vi.

Um comentário:

  1. Pois é...posso me chamar joão, ana, maria, pedro, josé...que diferença faz? Não moramos na mesma cidade, não tenho nenhum sítio que possa ser encontrado...nem tenho nenhum interesse em te conhecer pessoalmente...então...acho que para isso serve essa assinatura. Nos dispomos a ter uma relação anônima. Mas se preferir posso me inventar diferente a cada novo comentário.

    Sem contar, que...como você sabe que todos os anônimos são um só?

    Abraço.
    Te cuida.

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