quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O" QUANDO" ficou. E o "SE"? Partiu no primeiro trem



Naquela tarde ela lembrou daqueles dois jovens namorados. Namoravam firme e logo numa fase da vida onde tanta coisa se tem para viver. Tanta coisa se tem ainda para mudar...Mas eles pareciam que queriam muito um ao outro. E tem mais, para o resto da vida. E olha que num tempo em que tudo é urgente, fugaz, passageiro, efêmero, ultrapassado, obsoleto, inclusive os chamados sentimentos mais profundos e os compromissos a dois.

Como estudantes que eram e lisos - sim porque a boa característica da maioria dos estudantes é o "lisume" - os programas de namorados eram limitados, mas muito bem aproveitados. Cineminha no fim de mês quando a mesada saía com direito a pipoca e refrigerante. Cerveja com batata-frita no domingo! Nossa era o auge. Sem contar quando poupavam uma graninha para sair por aí, sem destino, conhecendo as belezas naturais das cidadizinhas vizinhas, onde eles eram apenas dois turistas quaisqueres. Os dias de charminho só para ganhar um chamengo e ser mimada, protegida.

Nessa ocasião ele sacava a câmera e a transformava em sua modelo. Nunca ela tivera fotos tão belas quanto as tiradas por ele. Ela era um anjo.

"- Sorria vai"
- ela lembrou-se - Que mania de querer ficas sisuda. Você fica tão mais linda quando rir sua bobona. Pombona!

Sem contar outros momentos clandestinos. Como não tinham como ficarem sozinhos, eles esperavam os pais sairem uma ou duas vezes na semana para pagar contas, fazer supermecado , enfim... e aproveitavam para ficarem sozinhos. Nessa ocasião colocavam música alta, bebiam, se amassavam, tomavam banhos juntos , ela andava de calcinha pela casa com a camiseta dele, ele cozinhava sobremesas para ela...numa intimidade clandestina. "Rápido! Já está na hora do meus pais chegaram!". E saiam para fazer qualquer outra coisa pela cidade: ir na pracinha, ver algum amigo...

Nem tudo foi flores, claro. Com o tempo perdeu-se não só esses momentos mais simples e singelos como as brigas tornarm-se mais irremediáveis. Só tinha uma coisa que ele apurara sobre ela ao longo dos anos. Que ela era uma "manteiga derretida". Chorava até com comercial.

Mas se tinha algo que era indicador de que um apocalipse se anunciava era quando locavam filmes de temática críticas, mordazes, sociais e ela chorava sem parar. Ela perdia o fôlego, parecia que ia desmaiar. E o pior que ele sabia que não era encenação. Muito menos compaixão pelo sofriemnto do outro. Ele sabia que era mais. Sabia que ela havia se encontrado ou se perdido no filme. Seu espelho estava lá, em algum lugar, em algum sonho, em algo que se perdeu...E nossa como ele temia esses momentos. Talvez fosse os dois que naquela fantasia pudessem se perder também.

Logo eles que faziam tantos planos que naquele momento pareciam possibilidades remotas: quando tivermos emprego, quando nos casarmos....Ela lembrou daquele filme, Closer: perto demais. Nossa! Nesse dia houve soluços e ela assistiu e reassisitiu várias vezes o filme. Teria sido ali o início do processo do apocalipse final? Algo havia quebrado mesmo? Havia um elefante no meio da sala ou criou-se o dito?

Quando estavam pertos pareciam estar longes. Quando amavam um pareciam se apaixonar pelo outro. E a paixão pelo outro parecia menor e esvanecer diante do que seria o para sempre... Nem tão simples assim era o filme, nem aquele romance.

Quando trabalharam não se casaram, quando se formaram não se casaram...A possibilidade remota tornou-se de fato um SE. E SE tivessem construído uma vida juntos.

Passou o trem e cada um ficou em estações diferentes, em lugares diferentes e esperando coisas diferentes da vida. Quem sabe ainda procuravam pequenos momentos singelos. Quem sabe tenham entendido que nem sempre se é o que se diz ser. Quem sabe tenham entendido que somos eternos esbolços de quem relamente somos/achamos/gostaríamos de ser.

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