quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Na cabeceira


Quando ele chegou em casa depois do trabalho havia na cabeceira da cama um bilhete. Ele não sabia ao certo se era um bilhete ou uma carta. A meia luz do fim da tarde entrava pela janela enquanto o torpor do cansaço de um dia de trabalho tomava conta do seu corpo. Não sabia ao certo se queria ou não ler aquilo...Seria bom, seria ruim...jamais saberia se não lê-se. Mas e o cansaço? E se piorasse? Mas e se trouxesse ânimo? A antiga e velha esperança? Ou seria curiosidade? Não dava para esperar para amanhã. Ele tinha pressa. O coração dele tinha pressa, apesar de tão cansado.

Estava escrito:

Oi,

Me desculpe. Não quis me despedir de você. Preferi deixar um bilhete. Não é a melhor maneira, no entanto, acho que assim talvez doa menos. Parto hoje. Não há nada mais meu com você. Sei que deve estar sendo difícil para você, mas acredite: para mim também não é fácil. Precisamos recomeçar uma nova vida. E apesar de tantas idas e vindas, se é que eu posso chamar de idas e vindas. Ás vezes sinto que não há verdade suficiente entre nós...Coragem suficiente entre nós. Coragem de enxergamos um no outro não só o lado lindo e maravilhoso que sei que um dia percebemos em nós mesmos, mas coragem também para amar os defeitos porque é desse par que se faz o dia-a-dia. Sinceramente não sei se voltarei. Apenas sei hoje que parto. Parto com o coração mais leve em saber que fiz o que pude. Que talvez tenhamos feito o que pudemos e só o tempo vai dizer quais coordenadas tomaram nossas vidas. Se nossas latitudes e longitudes,um dia - que a cada segundo que se passa para mim parece mais longe - se encontrarem, não será por causa da tristeza sem fim, por um porre, pelo alívio da dor que carrego no peito por não ter sido como no meu sonho ou fuga para o prazer instântaneo. Será somente nós: eu e você. Nus e crus. Fique bem.

Ele ficou ali parado, lendo e relendo. Nem todas as singelezas são capazes de apagar o peso das violência e das perdas mútuas numa relação. Talvez aliviá-las.

2 comentários:

  1. Sinceramente espero q a personagem volte... volte pra dizer que não é so personagem... volte pra tentar realmente... volte pra simplesmente ter coragem de dizer... volte porque tem saudade e não desespero... volte porque sentem coisas muito maiores por elas do que palavras que são ditas, escritas ou simplesmente deixadas em uma garrafa ao acaso do vento... simplesmente volte completa... volte

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  2. ... e ele ficou pensando como são fluídas as coisas que se sentem...

    ... que nunca se saberá o que se perdeu, porque a cada viagem nunca se sabe o retorno, se é que haverá um...

    ... e ele foi dormir com a sensação de que o amor se foi e que só ele pode escolher voltar...

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