segunda-feira, 1 de março de 2010

Eu pavoneio, tu pavoneias, ele pavoneia

René Magritte, O falso espelho, 1928


Pavão: bicho que para mim é sinônimo de vaidade, um dos sete pecados capitais. Se devemos tê-la? Claro que sim, mas em que medida? Em que medida é auto-estima ou exibição? Acho que essa é a pergunta chave.

De cauda exuberante, o pavão não quer apenas sê-lo, mas principalmente visto e admirado. Não a toa, no reino animal os machos usam sua cauda para atrair a atenção da fêmea e acasalar. No reino animal humano a cauda pode assumir várias plumagens, um verdadeiro show camaleônico. E o desejo é também o de chamar atenção, não só da fêmea, mas de qualquer um outro da espécie.

A convivência me fez perceber a quase léguas um Humano-Pavão. E uma regra importante que não deve ser esquecida: NUNCA DÊ ALGO A ESSE TIPO ESPERANDO QUALQUER COISA EM TROCA, SEU ÚNICO COMPROMISSO É CONSIGO MESMO E PONTO, PORTANTO, QUE OLHEM O SEU RABO. ORA BOLAS! É só para evitar decepções, ok?

Sendo em alguma medida bem simplista com o gênero humano, que é bastante complexo, os machos ainda saem em disparada no quesito pavoneamento. Fazendo uma tipologia mais distintiva, existem os:

· “Narcisos” - reconhecidos pela beleza de seus corpos malhados, sarados, pelas roupas bem definidas e pelo o que há de melhor a ser consumido, como numa homenagem a si;

· “Socráticos” – esses podem ser reconhecidos pelos milhões de letrinhas que saem de seu vocabulário erudito. Do tipo que esbanjam conhecimento disso e daquilo. Quase uma biblioteca ambulante com no mínimo de três estantes de livros, o que necessariamente não implica que realmente saibam o que estejam fazendo ou falando. Podem ser daqueles que simplesmente conhecem TUDO pela orelha dos livros, aquela partezinha que introduz um livro e serve de marcador ou aba desse artefato. Outra característica importante desse tipo é que necessariamente não precisam ser feios. Pois é! Não existe mais gente feia. Existe gente pobre. Por quê? Parece preconceito? Mas não é. Existe conserto para tudo menina. Você hoje pode emendar os olhos, mudá-los de cor, esticar ou enrolar os cabelos, a bunda e os peitos podem ser rapidamente turbinados, seja na “faca” ou com ajuda de acessórios do “bat-cinto”, bem a lá super-herói...E a muito tempo essa “regalia” deixou de ser privilégio das mulheres ta? Conheço homens declarados “macho-chô” que por um espelho são capazes de matar e morrer. Nesses casos de vida ou morte, às vezes percebo uma pontinha de insegurança na disputa pelas fêmeas. Por sinal cada vez mais exigentes. Portanto, esse negócio que gente inteligente é para compensar feiúra já não existe mais;

· “Mandracks” – são do tipo ilusionistas. Você não sabe mais onde começa um e termina o outro. Onde começa beleza e termina o charme, nem muito menos inteligência e um “Q” de humildade: “Imagine eu!?” Acredito que seja a expressão que mais os caracterizariam. É uma mistura de narciso com Sócrates e uma pitadinha de Don Juan. Um verdadeiro canto das sereias grego para as despreparadas.

Bem, não a toa o enredo da escola de samba campeã desse ano no Rio de Janeiro, Unidos da Tijuca, surpreendeu pelo seu enredo e apresentação: “É segredo!”. Num verdadeiro show visual. Os acadêmicos daqui e dali discutem que mais do que nunca vivemos na contemporaneidade na sociedade do espetáculo, em que a verdadeira arte consiste no espetáculo de enganar os olhos e direcionar o olhar. E onde entra o eu pavoneio? Rapaz, uma coisa que não consigo fazer direito, ó! Até porque auto-análise tem limite. Sei que perco muito tempo quando quero, e disposta, nos meus olhos verdes que os acho lindo porque para mim são poéticos. O verde me lembra o mar, o mar de Camões. O mar que tanto me perco e me acho, como num adentrar no triângulo das bermudas: a cor dos olhos, que levam ao olhar e ao sorriso. Ou seja, eu pavoneio... também... os meus olhos de Camões, de Jobim quizá como no falso espelho de Magritte...

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