sexta-feira, 19 de março de 2010

Eu sou apenas uma mulher


O título dessa postagem parafraseia uma das letra de Cazuza, na qual ele canta o referido refrão: "Eu sou apenas uma mulher...". E por incrível que pareça essa postagem não fala sobre mim. Talvez fale de uma parte de mim que homenageia alguém especial: minha mãe, que antes de qualquer coisa é apenas uma mulher. Nem a melhor, nem a pior, apenas uma mulher. Uma mulher que lutou para criar dois filhos da forma como achava que devia e podia. Uma mulher que se ama e se odeia ao mesmo tempo por ser forte como pimenta malagueta, extravagante como a cantora Amy Winehouse diante de sua passionalidade - não à toa por muito tempo a chamava de mami Amy - e até um adolescente na hora de resolver as coisas. Vai tudo no grito, no peito e na raça.

Foi com ela que logo cedo aprendi a ser guerreira. De presente me deu a "peixerinha", me jogou na selva da vida e disse: "-Vá! Corra atrás do que quer." E junto com a peixeira veio a energia da paixão de brigar, de lutar e de perder as estribeiras. Aí! Como hoje sofro para contê-las dentro de mim. Foi com ela que aprendi a doar: amor, dinheiro...

É com ela que aprendo todos os dias: "Levante, sacunda a poeira e dê a volta por cima". Ela acredita mais em mim do que eu mesma. Ao contrário do que normalmente acontece, ela é que é minha fã e coloca meu ego lá encima. Mas sem dúvida ,diante de tantas ambivalências que essa mulher sucinta dentro de mim e nas pessoas, sempre é bom encontrar alguém que apoia qualquer loucura sua e incondicionalmente. Seja para matar ou para morrer...

É bom ter um colo para chorar mesmo sabendo que ela detesta me ver chorar e nesses dias vai preferir que eu tenha um enfarto calada do que ver um traço de sofrimento no meu rosto, como uma lágrima. É bom poder chegar a noite juntar a nossa família - ela, meu irmão e eu - e fazermos aquela folia na cama dela para ouvi-lá tantas vezes dizer:
"- Tá pensando que aqui é o muquifo do quarto de vocês é? É não. Vou fazer um quartinho para mim encima do banheiro. Numa pausa dramática querendo fazer melodrama mexicano e chantagem barata porque ela também gosta dessa farra....

Hoje é o dia do aniversário dessa mulher que poderia "estar matando, roubando, abrindo as pernas facéis", parafraseando a personagem do humorista Tom Cavalcanti Jarilene, mas que decidiu criar dois filhos sem enlouquecê-los completamente. Afinal apesar de dizerem que o instinto materno é genético, traço para própria sobrevivência da nossa espécie, concordo com LASNIK, Marie-Christine, quando em seu livro "O nascimento do humano" fala que a maternidade é mais profunfa do que um instinto. É transgeracional, aprendida e repassada de mãe para mãe ao longo das gerações. E trata-se mais do que aprender o simples cuidar de dar de mamar e trocar fraldas. Trata-se de aprender e repassar afetividade e a importância do outro na sua vida e ensinar nessa relação a própria importância de si, seja pela voz, pelo gestos e pela descoberta do significado de cada choro, de cada expressão de seu bebê.

Esperar então, que apenas uma mulher/mãe não reproduza o embrutecimento das relações maternais, as quais vivenciou, por si só já é digno de palmas. Esperar que mesmo cindida pela falta de amor maternal ainda sim seja capaz de doar amor, é ser grande. E hoje em mais um dos seus atos grandiosos a mesma proferiu em homenagem ao seu dia:

- Ô Ithalo, já comprou o pão?
- Claro que não.
- Claro que conheço é uma operadora...

Essa é minha mãe. E com orgulho. Loca-loca...

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