sábado, 15 de maio de 2010

Encontro ou perdição?



"- Olá!A cama está fria. Por onde andas?"


Não. Não era um telefonema, muito menos um bilhete, um telegrama ou uma carta.Tratava-se de um torpedo via celular de apenas duas linhas. E na ânsia de estabelecer contato e trazer calor ao dia retornou ligando e em poucos segundos de diálogo algumas palavras a fizeram desmanchar ante a objetividade mundana:

"- Olha é o seguinte. Eu não estou muito preocupado com frescura. Não tenho cabeça para isso agora...o que eu quero é um teto, uma cama e um monte de camisinha pra foder...- depois de uma breve pausa tenta imendar o sem "soneto" - Desculpa. Eu não deveria ter dito assim. Dessa forma...Estou sem cabeça."

E quando ela desligou pôs-se a pensar: em tempos pra lá de modernos, aonde tudo precisa ser breve, o espaço, os amores, os encantos, inclusive as palavras, ou melhor a falta delas? Todo o Romantismo das flores, dos bombons, das trocas de olhares sinuosos, ou quiçá um recado, uma carta, um telefonema, tornou-se obsolescência inútil, perca de tempo com fantasias, quimeras e bobalhagens típica dos livros que marcaram nossa literatura no século XIX? Eram coisas de um tempo velho e como muitos dizem, atrasado, sem o vigor, a audácia e a coragem dos novos tempos?
E que coragem e audácia são essas? "Evoluímos"? Ou como já dizia
Lavoisier que "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma" e estaríamos reinventando um novo tipo de contato nem igual, mas também não tão diferente ao naturalismo típico da literatura parnasianista também de século passado? O naturalismo no qual os intinstos urram e lutam para libertar-se dos "grilhões psicológicos" do sentir/saber que somente a animalidade poderia nos proporcionar?

Com tantas perguntas numa época sem tempo para ter tempo, sem tempo para fantasiar, criar, se encontrar e se perder quantas vezes for necessário, ficou-se a perguntar: "O que fazer com o calor que brota da alma? Ou seria da entranhas? O que fazer com a falta de palavras que fazem ruborizar? Da falta do contato que fazem os óculos embaçar, o coração palpitar, e o corpo ficar molinho-molinho somente na expectativa do ver, do sentir, do ouvir e de fantasiar?

Tempos audaciosos, corajosos ou medrosos e vulneráveis ao outro? Somos reféns ou senhores desse tempo inimaginado ou sem imaginação, sem confiança para ir e apenas se lançar?

Após aquela tempestade de ideias, cabisbaixo continuou a andar pela rua e a conversar sobre qualquer outra coisa que não conseguia se engrenar, sem dizer a quem acompanhava aquele turbilhão de emoções que acabara de pensar num breve espaço de tempo e de um telefonema.

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