sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Carta a um soldado


Da parte surreal do real, outubro de 1945

Ao Soldado Ryan,


É com muito pesar que dispenso-me do soldado Ryan. Poderia citar aqui suas qualidades e bravuras, como é comum a todas as homenagens póstumas aos abatidos em batalhas. Porém, seguirei o caminho inverso e tentarei transcrever a objetividade subjetiva daquele olhar ou olhares. Durante os quase cinco meses por trás das trincheiras, capturei pelo menos sete tipos de olhares, cabalísticos por sinal:

Um quando está alegre, num sorriso largo de ponta a ponta da orelha, junto com o corpo que dá pequenos espasmos;

Outro quando fica triste, quase pedindo colo diante do desapontamento;

Um outro quando parece um anjo ao dormir. E o rosto simplesmente descansa.

E um outro quase que vingativo em nome da honra e da vaidade lavadas;

E ainda outro. Aquele olhar que devora na ansiedade de tudo querer e decifrar;

Há ainda outro de quem está satisfeito...

E por fim, aquele que eu mais amava e do qual não tive como me despedir: o acompanhado do som da tua voz que me acordava ao amanhecer, simplesmente cantando canções românticas antigas.

Não tive como despedir de todos e então parti sem dizer a todos que existiam e dos quais sentirei muita falta. Jaz uma não, mas duas almas...

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