sábado, 22 de janeiro de 2011

Fragmentos em DOIDAS e SANTAS (parte IV)


I- SOBRE O DESEJO
"Seguir nossos desejos é o que nos torna livres, e o desejo é variável, mutante inclassificável - não pode ser considerado moderno ou antigo, é o que é. E mesmo que consigamos obedecer apenas aos nossos instintos mais naturais, com toda a liberdade que isso implica, ainda assim pagaremos um tributo ao sofrimento, simplesmente porque viver, seja da maneira que for, nunca é fácil."
(2009:131)

"Somos capazes de nos apaixonar por quem já fomos apaixonados, desde que esta pessoa se apresente a nós com uma novidade e nos dê também a chance de sermos que a gente ainda não foi"(2009:173)

II- SOBRE VIVER
"A "pior" vontade [de viver] é a de não se enraizar, não assinar contrato de exclusividade, não firmar compromisso, não render-se as vontades fixas, apenas às vontades momentâneas, porque as fixas se transformam em vaidade - como se sabe, há sempre aqueles que se envaidecem da própria persistência [...]A vontade oficial, a vontade santinha, a que não causa incômodo é a outra, a aprovada pela sociedade, a que não leva em conta que vai no seu íntimo, e sim a opinião pública. É a vontade que todos nós, de certa forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber para conseguir isso é preciso, antes, ter a "pior" vontade, aquela que faz você descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, é saber-se capaz de agarrar o instante, é lidar bem com o que não é definitivo - ou seja, tudo". (2009:151)

"Porque nosso mal é este: pensar demais. Nós, as reconhecidas como sensíveis e afetivas, somos, na verdade, máquinas cerebrais. Alucinadamente cerebrais. Capazes de surtar com qualquer coisa, desde as mínimas até as muito mínimas. Somos mulheres que nunca estão à toa na vida, vendo a passar, e sim atoladas em indagações, tentando solucionar questões intrincadas, de olho sempre na hora seguinte, no dia seguinte, planejando, estruturando, tentando se desfazer dos problemas, sempre na ativa, sempre atentas, sempre alertas, escoteiras 24 horas" (2009:153)

"A fonte da juventude chama-se mudança [...] A ùnica maneira de sermos idosos sem envelhecer é não nos opormos a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. É assim que se morre jovem, sem precisar termos o mesmo destino de um James Dean ou de uma Marylin Monroe.[...] Toda mudança cobra um preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao nosso olhar é avida que a gente optou por levar" (2009:225-227)

"Mudanças não significam fragilidade de caratér. É preciso ter uma certa flexibilidade para evoluir e se divertir com a vida. Mais ainda a flexibilidade é fundamental para manter nossa integridade, por mais contraditório que pareça. Me vieram agora a mente os altos edifícios que são construídos em cidades propensas a terremotos, que mantêm em sua estrutura um componente que permite que se movam durante o abalo. Um edifício que balança! Com que propósito? Justamente para não vir a baixo. Se ele não se flexibilizar, a estrutura pode ruir".(2009: 180)

I- "Faça o que diz e faça o que fale..."
"Isso vem ao encontro de algo que sempre defendi, por mais que pareça egoísmo: se quer colaborar com o mundo, comece por você. Tem gente a beça fazendo discurso pela ordem e reclamando em nome dos outros, mas também a própria vida desarrumada. Trabalham naquilo que não gostam, não se esforçam para conservar uma relação de amor, não cuidam da própria saúde, não se interessam por cultura e informação e estão mais propensos a rosnar do que a aprender. Com a cabeça minada, vão passar que tipo de tranquilidade adiante? Que espécie de exemplo? E vão reivindicar o quê?"(2009:170)


MEDEIROS, Martha. Doidas e Santas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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