domingo, 4 de novembro de 2012

Entre verdades e ritos na fotografia


"A fotografia captura um instante, põe em evidência um momento, ou seja, o tempo que não pára de correr e de ter transformações (...)Na fotografia encontra-se a ausência, a lembrança, a separação dos que se amam, as pessoas que já faleceram, as que desapareceram (...)As imagens são aparentemente silenciosas. Sempre, no entanto, provocam e conduzem a uma infinidade de discursos "


 Às vezes me sinto como num filme de ficção científica. Especialmente quando penso em fotografia. Não faz muito tempo que me pegava imaginando as fotos que se mexiam na descrição da autora J. K. Rowling na série "Harry Potter". E se alguém me contasse na ocasião que em breve teríamos essas benditas fotos que se mexiam, provavelmente acharia um exagero. Acharia que alguém tinha tido uma overdose de tanto assistir os Jacksons. Mas és que voilá! Depois da foto mochila, dos monóculos do tempo da minha mãe, as fotos de filme, chegamos nas digitais e nos portas retratos desse tipo de fotografia, onde de fato até parece que as fotos não são produções estáticas.  Quando lembro dos dilemas das fotografias reveláveis: "Será que vai ficar bom quando revelar? Será que queimou? Será que coloquei o filme na máquina direito? Será que em tal lugar vai ter filme para comprar? E o preço disso?"


Nessas circunstâncias as digitais tornaram-se uma benção. Em compensação, hoje tudo é motivo de foto e como Martha Medeiros descreveu em uma de suas crônicas será que não é demais? Tem coisas que não são registradas porque temos o direito de guardá-las apenas na memória. Ou quiça de esquecê-las. Ou então, será que não estamos banalizando a fotografia? Afinal se tudo é natural para ser fotografado nada é especial realmente. E daí quando lembro que um jovem trio me parou para que fotografasse com celular que estavam ao meio-dia esperando o ônibus para o interior. E daí fiquei pensando: "o que tem de especial naquele momento além de sol e zum-zum de carros num lugar nada atrativo?"


"[fotografia é a] necessidade de prolongar o contato, a proximidade, o desejo de que o vínculo persista (...) negação do nada e para prolongar a vida, de tal forma que entre o representado e sua representação haja uma transferência de alma.(...)" porque unindo o antes com o agora temos a capacidade de ver a transformação e de alguma maneira decifrar o que virá (...) [Já que] a imagem não é uma simples metáfora do desaparecido, mas sim uma metonímia real, um prolongamento sublimado, mas ainda físico de sua carne (...). Não sabemos se esses momentos foram significativos em si mesmos ou se tornaram memoráveis por terem sido fotografados.Marca da própria existência e que lhe deem sentido a fotografia é capaz de ferir, de comover ou animar uma pessoa. Para cada um ela oferece um tipo de afeto"
  

 E um lado de mim lembrava das discussões do  Antônio Rubim ao colocar que na sociedade do espetáculo há uma necessidade histriônica nunca vivenciada antes de estarmos em evidência, na mídia, no espetáculo, no caso das redes sociais, nas páginas de relacionamento...Lembrei do sociólogo Bauman ao expor que aquilo que nos aproxima seria justamente aquilo que nos separa na sociedade da informação: a virtualidade. Nunca estivemos tão sozinhos. Lembrei da discussão do caso de Cristina Mortágua ao postar nas tais páginas de relacionamento mensagens que dariam a entender que estava prestes a atentar contra a sua própria vida, gerando um tumulto entre os conhecidos. 
 Especificamente nessa situação lembrei do comentário de um  psicanalista que colocou como as pessoas haviam tornado as redes de relacionamento um lugar inapropriado para fazê-las de divã. Um divã que as pessoas desabafam na expectativa de aliviar uma angustia que provavelmente não encontra direcionamento ao não ser a intromição e o pitaco permitido por estranhos. E vou além. Penso na exposição desnecessária dos recadinhos indiretos das mensagens publicadas. Afinal o privado virou público e não só certo alguém sabe o que se queria dizer, mas toda a rede!O que pode sim levar a ridicularização de quem emite a mensagem. E finalmente no caso da fotografia do trio no meio da rua, minha outra parte lembrou o que tinha de especial naquela situação: a  juventude. A juventude que viceja que vê beleza e motivos para comemorar onde muitas vezes deixamos de vê-los.

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