sábado, 28 de dezembro de 2013

A retrô da Ana O. em mais uma das crônicas rodriguianas pós-modernas

Conforme vínhamos falando por aqui, Ana O. é uma figurinha diferente. Gosta de pirulito que deixa a língua azul e além de ler os clássicos da literatura, também diverti-se com livros e desenhos com historinhas infantis. Aprende com eles também e não tem vergonha de andar patinando no carrinho do supermercado ou lembrar de alguma cena de filme e de onde estiver reproduzir a cena ou sons, como a música de missão impossível. Isso confere a ela espontaneidade e muita vontade de ser feliz. 

Por sinal, o que Ana faz assim se faz não por se achar super sexy, mas por diversão. Tipo: escrever um artigo depois de sexo com o "namô"; ficar nua e a meia-noite mergulhar na piscina com aquela calcinha shortinho, no melhor jogo mostra não-mostrade da renda transparente; colocar seu salto Loubotin preferido, um tubinho preto, um batom vermelho e ir até a casa do ex para  jogar em sua cara todas as traições e sua pobreza intelectual quando esteve do seu lado no momento mais importante de sua vida, lendo, corrigindo e traduzindo para o francês a tese acadêmica. Folhas ao ar, saída triunfal...Assim era Ana, mas não teatralizada, apenas passional.

E chegando ao fim de 2013 não tem como não ela não querer compartilhar com sua amiga Sig pelo menos num bilhetinho por SMS, ou vários: 
"Amiga, feliz 2014! Confesso que tenho medo do que estar por vir. Ando um pouco cansada das minhas ambiguidades, mas ando mais preocupada ainda com o rumo das coisas...Essa minha mania de pensar no futuro. Enfim, me preocupo mais ainda porque não vejo mais as previsões astrológicas nas capas das revistas, nem nas matérias de entretenimento da TV. Tá, e o que isso significa? Não Sig! Não me converti a cabala. Significa que o mudo está mais cru. Que não acredita mais em magia alguma. Está sem fé. Sem esperança. E sem isso como continuar? Vendo apenas em frete a TV as retrospectivas dos economistas políticos mundiais e nas guerras civis que se aproximam? Na injustiça e na crueldade naturalizadas? Não posso! Se não posso acreditar em magia, mudanças e metamorfoses dos números 13 ou 7, como alguns mortais, porque devo acreditar nos cientistas profetizadores?  E daí lembro o que li de um cientista político: a mentira mais convincente inventada pelo nosso sistema é a de que nada poderá mudar apenas seguir o curso que assim já está"

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mais um episódio de Ana O. nas Crônicas Rodriguianas Pós-Moderna

Conforme os últimos posts que revelam mais sobre a nossa personagem tão comum Ana O., desta vez ela acordou depois de mais uma noite mal dormida e cheia de pesadelos. Como se não bastante os pesadelos cotidianos que já vive... pilhas de papel, onde até parece que existem, dentro, gente em miniatura entrincheirada, sendo esmagada e saindo pelas bordas. Carimbos e sorrisinhos hipócritas de "Bom dia" carregados na verdade de desdém singelo. Até parece! Quem disse que Ana precisa esmolar o fruto do suor do seu trabalho? Esmolar "caridade de quem a detesta?"Ana, Ana, Ana...se eu pudesse daqui te dizer algo aí...Nem sei!

Foi com música de Sex Pistols encasquetada na cabeça que acordou praguejando a todos e com ânsia de derrubar uma parede ou então de jogar uma bomba no Parlamento da Falsidade Empregatícia...Pobre Ana! Logo veio a tona o conteúdo latente do último sonho e da relação que possuía naquele momento relação com a música.

No sonho Ana discutia com a madre superiora do convento do qual fazia parte, sendo chamada de perdulária. "Como assim! Ana! Num convento?". Não que Ana fosse ateia. Ela chamava por Deus nos momentos difíceis e também agradecia as coisas boas. Para ela não importava o contorno da força maior e nem ao que ou a quem poderia se atribuído isso, se ao homem crucificado de olhos azuis, ou outro símbolo de uma deidade qualquer. Ela também gostava do cheiro de incenso de sândalo com lavanda e do efeito das velas dançando a meia-luz do fogo. Sentia-se entre enternecida e risonha ao ver o comerciante que agradecia em plena manhã a jovem que rezava o terço em sua porta como que num sinal de benção diante das lojas roubadas na última noite.

A briga se dera dentro de um ônibus de viagem que partia com a Madre enquanto Ana saia porta fora, exigindo uma TV que levaria até a casa da esquina da próxima rua, onde morava, ou sei lá, se reuniam um bando de gente com roupas do tipo punk. Como uma "noviça/estranha" fora/dentro do ninho, apenas escutava:" - Não tenha medo! Pode entrar! Ana novamente acordara angustiada. Primeiro o celular. Desejo de se comunicar? Agora o ônibus. Desejo de partir diante de um presente tão opressor? Seria então o desejo de se teletransportar para um momento do passado que parecia aparentemente mais seguro? Fugir? Ficar? No entanto, Ana sabia que no fundo no fundo nada nem ninguém era seguro, nem mesmo ela.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Polêmico ou um comum: Afinal quem é Lobão?

Segunda-feira, 02 de dezembro de 2013, dei-me o "luxo" de dormir um pouco mais tarde para ouvir a entrevista de Lobão, o que me rendeu uma bela dor-de-cabeça pela manhã. Embalada por suas músicas e polêmicas nos anos 80, queria saber: afinal quem é Lobão? Ok! Nem mesmo ele diria que está interessado em saber a resposta. Mas como acabou de lançar uma biografia "Lobão: 50 anos a Mil", acredito que até mesmo ele tenha feito em algum momento essa reflexão de quem é, ou quem foi ele mesmo. A pertinência da minha curiosidade deve-se a associação que fazia dele com símbolos como o da anarquia, o da rebeldia e o da revolução. Como ele mesmo diz em uma de suas músicas:"(...)a contramão da contradição" .

Poético, mas de nada foram poéticas nem revolucionárias as suas declarações em entrevista no programa Roda Viva da Cultura. Personalidade escolhida para enquete desse dia, provavelmente por conta da dita biografia, mas também pelas polêmicas de um cara que agora é colunista da Revista Veja. 

"Como assim Bial?A Veja? Uma revista conservadora? Que tem como colunista somente os catedráticos em best sellers, com um cara que criticava a burguesia, o sistema?" Ok! Novamente o músico poderia me dizer:
"-E daí? O mundo está mudando. Não existe mais direita, nem esquerda. Você ainda não entendeu? Qual o problema da Veja querer dar uma cara mais de revista Cult ou da Mad dos anos 80 repaginada? Não existe rótulos. Tudo se descontrói". 

Por sinal uma palavra bastante em moda no momento. Ás vezes me pergunto até se as pessoas têm ideia do que é isso realmente...Enfim, o que encontrei na entrevista foi um cara confuso - algo bem visível quando era achacado pelos entrevistadores. Digo até uma certa desordem nos pensamentos que, no meu senso comum, interpreto como"entrando pelo pé do pato e saindo pelo pé do pinto" - auto declarante como a favor da propriedade privada, da livre inicativa, da diminuição da intervenção do Estado na pobreza social. Não seria esses valores capitalistas? Do sistema? Ou ainda, um cara de classe média que tinha o pai como melhor amigo do Roberto Marinho, o que não deixou de ser um empurrãozinho na carreira de músico e mais espaço para tanta rebeldia. Algo que lhe custou algumas noites na cadeia regada a cocaína e rivotril. Declarou-se como preso político. E daí me perguntei novamente: "-Como assim Bial?". Mais do que isso declarou-se como precursor do movimento alternativo ao lançar seus CD's na net, vendendo suas músicas por conta própria e peitando as gravadoras. Mas será que é isso tudo? Quem disse que ele era "O" precursor? Não é mais fácil ser rebelde com as condições que tinha. Não Lembra um certo personagem do filme "Meu nome Não é Johnny"?, baseado em fatos reais.

E logo meus pensamentos se completaram com a música do Rappa quando diz que: "a memória é uma ilha de edição(...)". É muito mais fácil para nós contruirmos uma narrativa sob um ponto de vista mais confortável e até motivo de orgulho para uma possível idealização da pós-morte e do morto que pode vir a ser imortalizado. Quem sabe na calçada da fama burguesa? 

Acho que diante de tudo isso permanecer no mundo de Alice e não ir para além do Espelho fosse melhor. Mas o que está feito, está feito e o que está dito, está dito! Ah! E qualquer semelhança entre está entrevista e o fight Dado Dolabella versus João Gordo, é mera coincidência. Mas fazer o que? Somos a soma do que fizemos e do que acreditamos ser....

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Crônicas rodriguianas pós-modernas: mais de Ana


Ana O.  era o tipo de garota que achava engraçado andar pela rua bem cedo e indo ao trabalho num dia de nublado ouvir um morador de rua cantarolar: “Quando o sol bater na janela do seu quarto”... O que a fazia completar mentalmente com outra música de Legião: “Sou mental, raio, relâmpago e trovão...”. Era assim que se definia. Não que não gostasse de sol, por sinal amava, mas também se sentia como uma personalidade com pitada de tempero indiano, o cury. O raio, o relâmpago e o trovão...
Por sinal, como quase toda mulher pós-moderna, não gostava de apanhar como as de Nelson Rodrigues.  Uma pegada mais forte pode ser. Talvez! Mas não necessariamente e sempre...Enquanto uma mulher do seu tempo, não gostava também de reforçar rótulos e já tinha o próprio chicote na mão para se bater, caso fizesse algo abominável dentro de seus valores. Longe de ser uma aquisição de livre espontânea vontade, o chicote era imaginário. Herança de uma geração bastante repressiva da qual foi fruto. Enfim, já tinha em mente que liberdade era de fato um mito porque os fantasmas de seus ancestrais, portanto, os valores arcaicos destes, já haviam contaminado e se enfronhado pouco a pouco nas frestas de seu ser.
Ana ainda era das que preferia uma máquina de lavar, um micro-ondas e um computador, do que se deleitar com os prazeres da cozinha feita com amor, ou os afazeres domésticos das super prendadas. Nada contra cozinhar. Até sabia fazer direitinho, mas quando sobrava tempo mesmo queria carinho na rede em dia de domingo; salada por opção e não por obsessão; filme com pipoca; pizza no jantar; gostar de quem gostava dela, sem jogos. Somente ela.
Mas o que atormentara Ana mesmo nesse encontro sonoro com o morador era lembrar-se de flashs do sonho que tivera na noite passada: Ela, seu ex-torturador e seu parceiro. Todos juntos numa cama. Como assim? Porque estariam ali? Aflição e angustia dominavam a cena onírica. Ela levantara e pegara um celular em cima da mesa do escritório. Tudo indicava que estavam em seu escritório. E o celular não era o do parceiro, mas o do torturador. O torturador ria de soslaio e dizia que não havia problema ter pego seu celular.

A cena onírica muda e logo estava na universidade buscando o armário do torturador para devolver algo sem que ele visse. E Ana se repetia no sonho: “- Mas eu não posso! Eu não quero! Eu não posso fazer isso com meu parceiro. Afinal mesmo quando dissera que o traira com esse outro ser asquerozo, ele entendeu e me acolheu”
E um amigo em comum – que por sinal não o via há alguns anos, decidido em não mais se envolver nas trapalhadas do ex-casal e a escolher um dos lados – surgira na cena e dissera: “- Não há nem um problema em voltar atrás, em se arrepender...”. Angustiada e atordoada com aquela resposta acordara. Quisera ela estabelecer comunicação? Mas com quem? Mas por quê? Estaria ela arrependida de algo que não quisera admitir? Sentia-se mal quanto ao quê? Não! Era impossível.  
O sonho se ia para dar lugar à rotina de sempre... “Quando o sol bater na janela...” Fora uma das últimas músicas que cantara num último encontro com o torturador. E chega da síndrome de Estocolmo!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Recortes da Graça da Coisa por Martha Medeiros

Livro de Martha Medeiros indicado para uma boa distração, "A Graça da Coisa", não supera "Doidas e Santas", nem "Feliz por Nada", mas também é uma excelente distração. Sem contar a intriga trazida já de cara na capa: Há algo de cinzento e sisudo  vagando no mundo que pode ser cada um de nós, depende de como sentimos a vida, afinal sempre há no canto/centro algo colorido e lúdico para nos divertir. Se tivesse a honra de escrever um livro como esse o intitularia "Coisas da Vida", bem ao estilo da frase "seria engraçado se não fosse trágico".

OS MELHORES MOMENTOS EM DOIS PRIMEIROS ATOS:

PRIMEIRO ATO: AFETOS
"(...) Metaforicamente, alguns homens e mulheres conhecem a experiência de ficar com um pedaço de si aprisionado, imóvel, apodrecendo, impedindo a continuidade da vida. Muitos tiveram a sua grande rocha para mover, e não conseguido movê-la, foram obrigados a uma amputação dramática, porém necessária. (...) Sim, estamos falando de amores paralisantes, mas também de profissões que não deram retorno, de laços familaires que tivemos de romper, de raízes que resolvemos abandonar, cidades que deixamos. De tudo que é nosso, mas que teve que deixa de ser, na marra, já que insatisfação é algo que debilita (...) Ás vezes o músculo está estendido, espichado, no limite: há um único nervo que nos mantém presos a algo que não nos serve mais, porém ainda nos pertence. Fazer o talho machuca. Dói de dar vertigem, de fazer desmaiar. E dói mais ainda porque se sabe que é irreversível. A partir dali, a vida recomeçará com uma ausência. (...) Mas é isso ou morrer aprisionado por uma pedra que não vai se mover sozinha. O tempo não vai mudar a situação. Ninguém vai aparecer para salvá-lo (....)" (In: Amputações, 2013: 14)

"As mulheres precisam muito dos homens,mas por razões mais profundas.(...)temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso, de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade, nosso mistério. O homem nos confirma como mulher, e nós a eles. Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assutados com essa senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais. (...) Podemos se rindependented e ternas, independentes e carinhosas, independentes e fêmeas - não há contradição. Estamos  mais solitárias porque queremos ter a última palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa  que não delega, não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber(...) A solidão, como contingência da vida não é trágica, podemos dar conta d enós mesmas. Mas ianda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir amada é o que nos sustenta de fato" (In:Sustento feminino, 2013: 36-37)
SEGUNDO ATO: A tradução da atual sociedade: 

"(...) Na impossibilidade de lutarmos contra nossas fraquezas, resta-nos a baixeza maior: se alegrar com a derrota alheia" (In: Dupla falta: 2013:12);

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Crônicas rodriguianas pós-modernas: Anas?

Ana O. sempre teve orgulho de ser uma daquelas do tipo feminista, mas não radical xiita que diante de tantas perdas seculares aos machos do clã tornou-se falofoba, ou qualquer palavra que designe sentimentos de medo do sexo oposto. 

 Ser independente, dona de seu nariz, sem ninguém dizer para onde ir, porque falar ou porque sorrir, não era uma questão de acinte, mas um direito ao mínimo da ilusão de liberdade ante a tantas opressões sociais. O que não queria dizer que não se emocionava com cenas românticas água com açúcar e que ansiava um dia poder conseguir dormir confortavelmente de conchinha.  O feminismo de Ana apenas não dispensava o carinho e o respeito de seu companheiro no que era essencial. 

Ok! Entenda-se como essencial não uma carteira recheada de dinheiro, carreira bem sucedida, nem um carro importado. O essencial estava no respeito a quem era e as suas escolhas. Na forma como valorava as pequeníssimas coisas que eram somente suas: aquele brinco especial escolhido para um momento deles; a fascinação numa loja de brinquedos, ou na praia, que lembravam um curto período da infância de Ana que foi menos difícil dos que vieram depois; ou ainda seus pequenos atos de subversão como rock in roll em dia de segunda-feira e beliscãozinho na bunda D-E-L-E em lugares públicos. O que ela não percebera é que tanta independência, iniciativa e sinceridade eram um repelente para os antigos/novos machos alfa dessa sociedade diferente e que resolve TUDO pelas redes sociais e sendo flexível no espaço-tempo. 

Ana perdera a quantidade de vezes que ouvira de seus relacionamentos estáveis que ninguém a aceitaria como era. Afinal ainda desejava-se que a mulher que trabalha fora dois expedientes e ainda fosse submissa. Ainda ansiava-se pela mulher que não tem ideias próprias e que não retruca as decisões de seu parceiro mesmo que esteja certa. Diga-se de passagem, que as novas feministas não são necessariamente voláteis em seus relacionamentos ou estáveis porque elas não DEVEM ser nada, apenas ser o que desejam ser. 

E nesse desejo de SER e não de TER. De existir quase que plenamente e não apenas de consumir pessoas e sentimentos instantaneamente, Ana também sonhava com o dia que encontraria não o seu “príncipe encantado”, mas seu parceiro. Essas são as vantagens de ser neofeminista, já que o “príncipe” não é loiro, lindo, nem cavalga para seu castelo depois de salvar a mocinha da torre, o que em tempos pós-modernos equivaleria a ter um “macho bombado”, com o carro da hora, casa em área nobre e que sustente os caprichos financeiros da amada consumida. 

 O parceiro de Ana aceitaria quem ela era, sem medo, e não tentaria destruí-la como uma forma de não enxergar suas paranóias de fracasso. Principalmente suscitaria o melhor dela, cativando-a, e não o ódio, a dor e a vontade de destruí-la ou sufocá-la. 

 O escrutínio de Ana tornou-se cada vez mais rigoroso e imaginem tamanha foi sua decepção ao descobrir que seu escolhido, assim como tantos outros se sentia ameaçado. E o que antes vinha na forma de depreciação das qualidades/defeitos de Ana e discursos pejorativos ou chantageadores, agora vem na forma de silêncio que quando muito questionado ou perturbado reage na forma de patadas gratuitas. Mas o silêncio não era zen, desapegado a esses antigos/novos valores culturais e materiais? O que restaria a Ana então? O silêncio a dois: mentiroso, solitário, amargurado, raivoso, mas velado? Ou quem sabe a raiva latente materializada em patadas que esconde o desejo de destruição do diferente, que era Ana, e o seu jeito? Ou seria mais uma quebra de braço com mais um querendo ser o macho alfa do clã?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Os solares por Martha Medeiros



"Sou mais verão do que inverno, mais mar do que campo, mais diurna do que noturna. Intensamente solar, e isso é, antes de tudo, uma sorte, pois sem essa energia vital eu provavelmente teria tido um destino mais sombrio (...)

Minha praia é Torres, Ipanema, Maresias,(...) e demais paraísos distribuídos por esse Brasil cuja orla é um exagero de radiante. Mais é preciso passear por todos os pontos antagônicos da nossa personalidade - ninguém é uma coisa só. Também tenho meu lado cachecol e botas, mas se fosse obrigada a escolher apenas uma de mim, nunca mais descalçaria o chinelo de dedos.

O solar tem seus momentos de introspecção, normal. Não há quem não precise e um recolhimento para recarregar baterias, fazer balanços, conectar-se consigo próprio. Mas ele volta, sempre volta, e vem ainda mais expressivo e sua vibração espontânea.

Há pessoas que possuem uma nuvem preta pairando sobre a cabeça só de olhar. Uma tempestade está sempre prestes a desabar sobre elas. Respeito-as, ninguém é assim porque quer, mas considero uma bobeira defender o azedume como traço de inteligência. Os pessimistas se acham mais profundos que os alegres. Não são.

"She's only happy in the sun" [Ela só fica feliz ao Sol]...

Sol combina com erotismo, cm bom humor, com leveza, com sorriso luminoso, com água cristalina, com calor, música, cores, vida. Quando ele se põe, me ponho junto, e nem assim apago: no escuro, me dedico aos vaga lumes."

02 de dezembro de 2012

Os Solares In: MEDEIROS, Martha. A graça da coisa. 1 ed. Porto Alegre: Rs:L&PM, 2013 (p.141-142)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A curiosidade que cria e a que mata

Dos pêlos do coelho do “Mundo de Sofia” que tudo questiona aos dilemas existenciais de Alice: ora grande, ora pequena diante das circunstâncias. Passando pela angustia de saber que nada se sabe, ou que pelo menos depois que teoricamente se sabe “a verdade”, não há como retornar ao ponto de partida como se nada tivesse acontecido. Nem ao menos sem tentar propagar entre outros, de suposta ignorância, a busca de verdades. A questão socrática posta pelo Oráculo de Delfos – “conheci-te a ti mesmo ou te devoro” – apenas enuncia que não há com fugir da força que governa cada um de nós sem que ao renegá-la um abismo maior de autodestruição se abra.  Se a mesma medida do veneno é a do antídoto, o mesmo paradoxo que torna a curiosidade criativa e transformadora é a que nos leva a encarar suas descobertas não como antídoto da ignorância, mas como veneno que permite saciar nossa vaidade manipulatória. Ou será nossa síndrome de Deus que tudo pode ou conserta? A vaidade geralmente anda de mãos dadas com a teimosia, à inteligência aguçada e outros casos sindrômicos, a sabedoria, no entanto, é humilde, paciente, madura e menos competitiva. E aí? Quem te devora?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

#Abobrinha recheada com hashtag#?

Depois de "milhões" de anos sem escrever, por falta de tempo e de tesão mesmo para isso, "O mano Jou" me enviou um link bem pedagógico à respeito da hashtag, mais conhecida por mim como jogo da velha. Essa:  #. Claro que não foi sem propósito. Ele lembrou de um episódio que reproduzi em casa sobre a dita e aqui descrita em três breves atos "teatrais".

PRIMEIRO ATO: "o fato"
Garotas conversando as sete da manhã na parada do buzão. A pessoa que vos escreve também  a espera.
- Tá ligada"mulhê"! Tipo assim: aí eu escrevi para ELE: "se ligue hasthag, eu tô ligada hasthag, tome cuidado hasthag -  a conversa girava em torno de um suposto rapaz. Conversa que para mim, não tinha conexão nenhuma e apenas enfatizava a hasthag com um desdém na voz .

SEGUNDO ATO: "o devaneio"
"Ham?" - Eu e meus pensamentos ainda sonolentos - "Quer dizer que depois de ser obrigada a escutar o sonzão  no buzão vou ser obrigada a escutar abobrinha recheada com hasthag? - Mas um lado de mim, que sempre busca o politicamente correto, logo me auto contestou lembrando-me dos regionalismos, do espaço que o "internetês" vem ocupando, inclusive na própria língua portuguesa, da posição dos línguistas sobre o quanto é preconceituoso rotular a soberania da transmissão da mensagem apenas pela norma culta...E por aí vai! Meu pensamento estacionou na frase:
"O IMPORTANTE É COMUNICAR!"

TERCEIRO ATO: "A explicação"
A hashtag de acordo com Fabiano Freire, colunista da Folha de São Paulo, trata-se de um símbolo que representa um aperto de mão secreto difundido no microblog Twitter, uma nova cultura de escrita rápida (ou será vazia?) que difundiu-se acrescentando humor, contextos, monólogos internos a mensagens e conversas do dia-a-dia. Ou então, usada  como ironia ou  metacomentário, na qual indica-se que o transmissor da mensagem não acredita realmente no que é dito. Bem parecido com as aspas que colocamos em algumas palavras para desdizer algo que escrevemos, tipo: "Fulano é muito "honesto".
Resumo da ópera: é melhor ser bem informada do que uma ignorante preconceituosa. Foi ótimo saber que esse símbolo presente no teclado do computador, antes sem função para mim, pode dizer tanta coisa. Mas vou te falar: acho que como uma série de tecnologias de informação e comunicação (TIC's),  a maioria não sabe nem para que serve e como usar. Quando penso que a maioria usa o espaço "No que você está pensando" nas páginas da rede, para "bostar" ao invéz de postar algo de interessante, suprindo carências, narcisismos, vazios de vida ou para lavar a roupa suja o tempo todo, entendo que a hasthag nessa conversa não fez sentido ao não ser o de cumprir o seu modismo de informar ao demais que a informante está ligada na rede, o que já é uma vantagem num país de tanta exclusão, inclusive a digital.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O que dizer para dor de existir

"-Te entendo bem. Não saber por onde sair, nem por onde entrar. Ter vontade de tudo e não ter vontade de nada. Ter raiva do mundo e ter que prosseguir. (...) Só sei que nos momentos mais difíceis conversar com determinadas pessoas com toda a raiva e toda tristeza que sentia por conta das coisas que não aconteciam, além de alívio, me ajudaram a ir em frente. É claro que elas não vinham com aqueles conselhos clichês: "Calma! Vai dar certo! Paciência!". Eu podia nessas conversar demonstrar toda a raiva que tinha do mundo e não transformá-la em raiva contra mim mesma. Demonstrar até mesmo raiva pelo que fiz e o que não adivinhei em fazer..." (fragmentos do diálogo de uma narrativa) 


quinta-feira, 16 de maio de 2013

A nova piada das Universidades Federais contada pelo Governo Federal

Como acreditar num país que cria uma série de programas para inclusão no ensino superior sob a pecha "de que o desafio para a superação da desigualdade está na democratização da educação e da qualidade, que dá as mesmas oportunidade para todos" (Ministro da Educação Aluísio Mercadante), se são necessários no mínimo dez anos para que "Zezinho" que saiu da periferia e encontrou todas as dificuldades na formação básica inicial alcance o título de doutor e seja digno de ensinar numa universidade federal?  

A desculpa de que  a medida provisória 614 que altera e lei do plano de cargos e carreiras  do manistério federal objetiva garantir a qualidade do ensino nem de longe chega a realidade de nossas salas de aula do ensino superior: sem infraestrutura, sem biblioteca atualizada e com professores desestimulados, inclusive os doutores.  Aliás, não são poucas as queixas dos alunos sobre professores que ao atingir a mais alta magistratura "doutorística" não se sente mais "a vontade" em ensinar coisas tão elementares aos graduandos e se recolhem a pesquisa quase que solitária numa rasgação de verbas de incentivo à pesquisa e a vaidade; não são poucas as queixas sobre a falta de metodologia ao ministrar das aulas que alguns alunos até chamam irônicamente de "encheção de linguiça", para não dizer do abarrotar de teorizações que de quase nada ajudam aos alunos a serem os profissionais que deveriam ser no mercado de trabalho, tornando-os ao final completamente despreparados e descrentes na educação para mudança.

Ao meu ver essa piada de mau gosto contada ao final dos informes publicitários que a oportunidade dada pelo Governo Federal  (com os créditos educativos, com as cotas e as bolsas de estudos), é deles, mas o mérito é nosso, do estudante, escamoteia apenas a lógica burguesa de que educação ao final não é para todos e o nosso mérito é muito mais um  esforço hercúlio de arrombar a porta do direito a fazer parte da educação com dignidade, uma questão de justiça social.  Essa medida apenas empurra um exército de mão-de-obra de reserva superqualificado para as franjas do mercado de trabalho das faculdades e universidades que precarizam o trabalho do professor universitário submetendo-os a qualquer tipo de acordo empregatício e de carga-horária. E o  que é que se pode esperar mais de um governo que se diz do trabalhador, do povo? Imaginem se não fossem!


quarta-feira, 27 de março de 2013

A ânsia desejante

 Quem nunca ficou fascinado não pela pessoa, mas pelo que ela é capaz de proporcionar? Quem nunca ficou fascinado pela ideia que nos “leva a”...?Viver conforme o não planejado... aproveitando cada oportunidade da vida... é uma máscara e um desejo que em maior ou em menor medida é posta por todos em algum momento como tantas outras máscaras que levamos em nosso arsenal.

Entretanto, como dizia Strauss, existem algumas que se agarra de tal forma a gente que não sabemos onde começa a pessoa e termina a máscara. E como toda encenação, há momentos que nos cansamos da máscara por mais bela e interessante que nos pareça; momentos em que os tipos como os James Jim, as Lolitas e os Mandelas após uma viagem de aventura querem apenas voltar para casa, para o conhecido: sem rebeldia, sem provocação, sem luta, apenas sendo da forma mais simples que lhe convier. Algo que sabiamente o experiente arquiteto de “Para Roma com Amor” soluciona não por meio da sabedoria “do que fazer e do que não fazer” trazida pela experiência, mas pela “exaustão”, mesmo que pareça coisa vendida ou coisa envelhecida.
 A trilha sonora que embala esse filme de Woody Allen é de leveza, brincadeira e até certa descontração como, por exemplo, a de um público que assiste ao programa de calouros. Inclusive ao escapar de uma trilha que lembrasse as tarantelas, Allen – assim como captou a essência melancólica e nostálgica da música francesa em sua última produção – acaba por escapar de possíveis obviedades ridículas nos surpreendendo e entrecruzando de modo brilhante micro histórias simples como numa declaração a Roma.
Sem querer resenhar ou criticar cinematograficamente, um momento lusco-fusco dessas tantas histórias está com o jovem que se apaixona pela personificação do inesperado e da espontaneidade. Pelo jovem que se apaixona não pelo amor, mas pela capacidade huamana de ser instavelmente desejante...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Tola ou louca? Desiludida ou Cega?


Ao ver ontem a cerimônia do novo papa pensei..."Queria eu poder acreditar que mulheres, negros, latinos e tantas outras minorias alcançando o poder e alçando conquistas fossem sinônimos de mudanças globais, no entanto, mais me parece uma manobra de re-oxigenação do sistema. Não foi assim com a tão famosa Revolução Francesa?  O povo que tomou o poder para atender os interesses dos grandes..."
E o que sustenta esse pensamento? O dia-a-dia recheado de relações de dominação e opressão que continuam do mesmo jeito e nem uma “marolinha” de mudanças em curso de fato acontece. Mas deixa isso para lá porque eu é que não quero ser a profetisa da desilusão.  Prefiro ser tomada como tola do que como louca e tomara que, de minha parte, esteja apenas acometida de uma cegueira  momentânea.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Moderna

Na condição de mulher moderna também sinto faltas...
Sinto falta de não ter que parecer forte, heroína.
Sinto falta de não ter nascido coquete.
Sinto falta de não me sentir única.
Sinto falta de não querer ser algo.
Sinto falta de não correr atrás da ilusão de liberdade.
Sinto falta de ser feminina.
Sinto falta de querer ser só bunda.  
Sinto a falta da tantas Fernandas, Zélias...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tanto carnaval por nada

O que é que faz uma pessoa buscar sarna para se coçar? Será suicida? Kamikaze? Enfim, depois de um dia extenuante de trabalho fui atrás das minhas próprias sarnas para me coçar...Tudo começou (hehehe...mas não se preocupem não irei delongar nessa introdução) quando uma colega mostrou o produto da discórdia: um cinto.
Comprado numa dessas grandes lojas de departamento, ele não possuía nada de muito especial, a não ser o fato de ser de couro, tamanho GG – que no meu caso de quadril largo é uma mão na roda – e baratinho: R$ 9,90! Sem medo de ser feliz, mesmo não sendo uma dessas fanáticas por liquidação, no final de um dia de trabalho a própria colega ajudou-me a encontrar um igualzinho: estava ele lá sozinho, abandonado, em meio a tantas outros. Sucesso? Não!!! Teve apenas um probleminha e não foi o receio em lançarmos uma moda de par de jarros idênticos, mas O VALOR.
Pois é! Em apenas cinco dias, o mesmo produto que estava na liquidação foi “re-ofertado” com tarjinha vermelha e tudo por R$19,90, ou seja, R$ 10,00 mais caro. Como assim Bial?A liquidação saiu mais caro do que o valor do produto original? Liquidação para mais e não para menos? Como o mesmo produto com uma redução de 0,5 cm em seu tamanho poderia ser menor e mais caro? Baseando-se então naquele princípio do direito do consumidor de que existindo o mesmo produto com ofertas diferentes prevalece o valor mais barato, fomos ao caixa e lá começou a “Odisséia no Espaço”.
Atendentes e supervisores tentavam nos demover de que embora fosse o mesmo produto, não era o mesmo produto porque era de estação diferente: um veio primeiro e outro depois. “-Oi? Está nos chamando de idiota?” - foi exatamente o que pensei com uma explicação desse tipo. E embora fosse cliente credenciada da loja o produto não me seria vendido pelo valor da compra inicial.
“E agora, o que fazer? Engolir o desrespeito ao cliente daquela loja em que era credenciada, a explicação sem noção e ainda comprar mais caro? Evitar a dor-de-cabeça, afinal nem era uma diferença tão grande? Ir ou não ao PROCON atrás do direito a informação e tirar essa história a limpo? Eu quero ou não quero esse raio de cinto?Mas para que tanto carnaval por nada?” Entretanto, não se tratava de ter ou não ter, mas de saber o que é mesmo importante no fim das contas. Afinal, o que é que faz a diferença no nosso país mesmo hem?
Minha ética tacanha e meu profundo respeito por mim mesma me impediram de levar o produto. Além de não levá-lo me senti na obrigação em ir ao órgão do consumidor. Lá, como era fim de expediente, não fui tão bem tratada, mas pelo menos informada de que prevalece o preço mais alto do produto final. Deduzi a partir do labirinto que é a interpretação do direito, que a loja tinha o direito de remarcar o produto para mais caro, mesmo que o produto de origem tenha sido mais barato. E aí o que restou ao final do dia? Ficou aquela coisa...”- Taí, tanto carnaval e aperreio pra nada...”Mas será que é para nada mesmo?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sexo com culpa

Utilizando dos reducionismos dos números, sexo com culpa é uma uma categoria que atinge mais do que um e um milhão. Mas espera aí! De que tipo de sexo sem culpa se está falando? Trata-se de uma modalidade muito específica daquelas relações que humoristicamente transliteramos como piadinhas infames...: "- Aí não! NÃOPARA! Não para...". Daquelas que a gente fica na dúvida se é para parar ou não "a pegação". Entretanto, excetuando a parte cômica dessa entrada, o que vale a pena destacar nessa situação tão intima é o conflito que a pessoa vivencia naquele momento posto que internamente uma parte quer e a outra não.

Algo comum, por exemplo, quando num triângulo amoroso. A pessoa se sente fisicamente atraída por outra, mas não quer trair o parceiro; ou ainda quando o relacionamento está em "estágio terminal" e mesmo não querendo continuar, a pessoa ainda meio que por hábito, pela nostalgia dos "bons tempos" ou pelo prazer instantâneo, vai a cabo dos fatos na relaçãoNo entanto, apesar do nome CULPA ser impactante, fazer sexo na sua presença está diretamente relacionado ao desejo, ao instinto, que não tem como característica pensar. Funciona como um alertazinho de que algo pode estar indo mal. Uma vez que como "seres sensitivos" a parte pensante inculca outras coisas na balança a serem pesadas e avaliadas ao fim do processo: "- E daí, no final das contas, vale ou não a pena?"

No entanto, sexo com culpa não pode ser confundido com sexo forçado. Situação em que uma das partes não quer, mas se sente física, moral ou emocionalmente pressionada em fazê-lo. Ato que é principalmente reforçado por ditos populares como: "- É necessidade de homem;" "- Mas é obrigação da mulher satisfazer o marido para que não procure outra". (Um absurdo!). Nem muito menos pode ser confundido com um possível desconforto diante de práticas sexuais não tradicionais, a exemplo do sexo oral ou anal. Assim,  mesmo que pesquisas mostrem a existência de zonas de prazer relacionadas  a essas áreas; que a resistência a essas práticas deva-se a uma formação moral arraigada em valores que associam a pecado, sujeira, vergonha...as mulheres possuem o livre arbítrio de escolher se querem ou não experimentar. 

Imagine ser forçado constantemente a comer quiabo para tentar convencê-lo de que é bom. No mínimo, nunca mais vai querer ver um quiabo na frente, ou então, sempre vai ter gosto de "baba". Se, de um lado, temos uma construção social em torno do sexo e do que é permitido ou não e que, portanto, o que é legal hoje pode não ser amanhã, do outro sabemos que não é forçando que se aprende a gostar, demonstrando para não ser indelicada, a inabilidade do parceiro com a inexperiência do desconforto físico e emocional dessas situações. Sem contar a inabilidade do tal parceiro com o "trabalho extra" para manter o nível da líbido lá em cima quando enverada por essas áreas.

Mas enfim, maniqueísmos a parte de certo ou errado, bem ou mal, sobre a questão, o fato é que não devemos nos preocupar porque afinal quem está no sol é para se molhar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A ânsia por liberdade



Ser livre para escolher. É o que mobiliza a busca por liberdade. Mas como escolher quando somos atravessados por projetos coletivos? Como saber o que realmente é a nossa vontade, se diariamente desejo de terceiros são inculcados como nossos? Como distinguir diante de necessidades criadas quais são realmente as nossas e quais são as dos outros?  Sem contar que existe o imperativo humano de pertencimento, de nos sentirmos parte de algo, de nos sentirmos aceitos. Algo que muitas vezes é o que confere sentido a nossa existência.
Mas para que haja coletivo é preciso convergências. E para que haja convergências são necessárias regras que balizem pontos em comum de situações que são de todos, o que propicia a aproximação do abismo da indiferença e da não singularização. Então o que escolher? O que não escolher? E se escolher perder-se? Afinal, perder-se do que ou de quem? Perder-se de si ou dos outros? Perder-nos-ia da existência e encontrar-nos-ia com o vazio? Seria assim?
Nessas circunstâncias flanar pela vida, sem um motivo, uma intenção, um objetivo, apenas sentindo o que a vida nos reserva, o inesperado, o acaso, torna-se quase impossível. Mas então, se as regras nos amordaçam, o que fazer quando a busca pela própria liberdade nos aprisiona? Quando ao invés de presos pela realidade, nos tornamos encarcerados pela fantasia dessa tal liberdade que nunca existiu em sua plenitude?
É difícil virar as costas para restrição, mas também não é nada fácil abraçar a liberdade. Em On the Road, filme baseado em livro de inspiração autobiográfica, essa relação nos toca de forma profunda. A fantasia da liberdade é levada ao extremo da auto degradação por Sal Paradise. E como não entender quando Dean Moriarty abandona essa busca ensandecida? É preciso ser muito insensível para não entender a ânsia de uma geração inteira por liberdade como a da beat.