quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Crônicas rodriguianas pós-modernas: Anas?

Ana O. sempre teve orgulho de ser uma daquelas do tipo feminista, mas não radical xiita que diante de tantas perdas seculares aos machos do clã tornou-se falofoba, ou qualquer palavra que designe sentimentos de medo do sexo oposto. 

 Ser independente, dona de seu nariz, sem ninguém dizer para onde ir, porque falar ou porque sorrir, não era uma questão de acinte, mas um direito ao mínimo da ilusão de liberdade ante a tantas opressões sociais. O que não queria dizer que não se emocionava com cenas românticas água com açúcar e que ansiava um dia poder conseguir dormir confortavelmente de conchinha.  O feminismo de Ana apenas não dispensava o carinho e o respeito de seu companheiro no que era essencial. 

Ok! Entenda-se como essencial não uma carteira recheada de dinheiro, carreira bem sucedida, nem um carro importado. O essencial estava no respeito a quem era e as suas escolhas. Na forma como valorava as pequeníssimas coisas que eram somente suas: aquele brinco especial escolhido para um momento deles; a fascinação numa loja de brinquedos, ou na praia, que lembravam um curto período da infância de Ana que foi menos difícil dos que vieram depois; ou ainda seus pequenos atos de subversão como rock in roll em dia de segunda-feira e beliscãozinho na bunda D-E-L-E em lugares públicos. O que ela não percebera é que tanta independência, iniciativa e sinceridade eram um repelente para os antigos/novos machos alfa dessa sociedade diferente e que resolve TUDO pelas redes sociais e sendo flexível no espaço-tempo. 

Ana perdera a quantidade de vezes que ouvira de seus relacionamentos estáveis que ninguém a aceitaria como era. Afinal ainda desejava-se que a mulher que trabalha fora dois expedientes e ainda fosse submissa. Ainda ansiava-se pela mulher que não tem ideias próprias e que não retruca as decisões de seu parceiro mesmo que esteja certa. Diga-se de passagem, que as novas feministas não são necessariamente voláteis em seus relacionamentos ou estáveis porque elas não DEVEM ser nada, apenas ser o que desejam ser. 

E nesse desejo de SER e não de TER. De existir quase que plenamente e não apenas de consumir pessoas e sentimentos instantaneamente, Ana também sonhava com o dia que encontraria não o seu “príncipe encantado”, mas seu parceiro. Essas são as vantagens de ser neofeminista, já que o “príncipe” não é loiro, lindo, nem cavalga para seu castelo depois de salvar a mocinha da torre, o que em tempos pós-modernos equivaleria a ter um “macho bombado”, com o carro da hora, casa em área nobre e que sustente os caprichos financeiros da amada consumida. 

 O parceiro de Ana aceitaria quem ela era, sem medo, e não tentaria destruí-la como uma forma de não enxergar suas paranóias de fracasso. Principalmente suscitaria o melhor dela, cativando-a, e não o ódio, a dor e a vontade de destruí-la ou sufocá-la. 

 O escrutínio de Ana tornou-se cada vez mais rigoroso e imaginem tamanha foi sua decepção ao descobrir que seu escolhido, assim como tantos outros se sentia ameaçado. E o que antes vinha na forma de depreciação das qualidades/defeitos de Ana e discursos pejorativos ou chantageadores, agora vem na forma de silêncio que quando muito questionado ou perturbado reage na forma de patadas gratuitas. Mas o silêncio não era zen, desapegado a esses antigos/novos valores culturais e materiais? O que restaria a Ana então? O silêncio a dois: mentiroso, solitário, amargurado, raivoso, mas velado? Ou quem sabe a raiva latente materializada em patadas que esconde o desejo de destruição do diferente, que era Ana, e o seu jeito? Ou seria mais uma quebra de braço com mais um querendo ser o macho alfa do clã?

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