terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Crônicas rodriguianas pós-modernas: mais de Ana


Ana O.  era o tipo de garota que achava engraçado andar pela rua bem cedo e indo ao trabalho num dia de nublado ouvir um morador de rua cantarolar: “Quando o sol bater na janela do seu quarto”... O que a fazia completar mentalmente com outra música de Legião: “Sou mental, raio, relâmpago e trovão...”. Era assim que se definia. Não que não gostasse de sol, por sinal amava, mas também se sentia como uma personalidade com pitada de tempero indiano, o cury. O raio, o relâmpago e o trovão...
Por sinal, como quase toda mulher pós-moderna, não gostava de apanhar como as de Nelson Rodrigues.  Uma pegada mais forte pode ser. Talvez! Mas não necessariamente e sempre...Enquanto uma mulher do seu tempo, não gostava também de reforçar rótulos e já tinha o próprio chicote na mão para se bater, caso fizesse algo abominável dentro de seus valores. Longe de ser uma aquisição de livre espontânea vontade, o chicote era imaginário. Herança de uma geração bastante repressiva da qual foi fruto. Enfim, já tinha em mente que liberdade era de fato um mito porque os fantasmas de seus ancestrais, portanto, os valores arcaicos destes, já haviam contaminado e se enfronhado pouco a pouco nas frestas de seu ser.
Ana ainda era das que preferia uma máquina de lavar, um micro-ondas e um computador, do que se deleitar com os prazeres da cozinha feita com amor, ou os afazeres domésticos das super prendadas. Nada contra cozinhar. Até sabia fazer direitinho, mas quando sobrava tempo mesmo queria carinho na rede em dia de domingo; salada por opção e não por obsessão; filme com pipoca; pizza no jantar; gostar de quem gostava dela, sem jogos. Somente ela.
Mas o que atormentara Ana mesmo nesse encontro sonoro com o morador era lembrar-se de flashs do sonho que tivera na noite passada: Ela, seu ex-torturador e seu parceiro. Todos juntos numa cama. Como assim? Porque estariam ali? Aflição e angustia dominavam a cena onírica. Ela levantara e pegara um celular em cima da mesa do escritório. Tudo indicava que estavam em seu escritório. E o celular não era o do parceiro, mas o do torturador. O torturador ria de soslaio e dizia que não havia problema ter pego seu celular.

A cena onírica muda e logo estava na universidade buscando o armário do torturador para devolver algo sem que ele visse. E Ana se repetia no sonho: “- Mas eu não posso! Eu não quero! Eu não posso fazer isso com meu parceiro. Afinal mesmo quando dissera que o traira com esse outro ser asquerozo, ele entendeu e me acolheu”
E um amigo em comum – que por sinal não o via há alguns anos, decidido em não mais se envolver nas trapalhadas do ex-casal e a escolher um dos lados – surgira na cena e dissera: “- Não há nem um problema em voltar atrás, em se arrepender...”. Angustiada e atordoada com aquela resposta acordara. Quisera ela estabelecer comunicação? Mas com quem? Mas por quê? Estaria ela arrependida de algo que não quisera admitir? Sentia-se mal quanto ao quê? Não! Era impossível.  
O sonho se ia para dar lugar à rotina de sempre... “Quando o sol bater na janela...” Fora uma das últimas músicas que cantara num último encontro com o torturador. E chega da síndrome de Estocolmo!

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