domingo, 26 de janeiro de 2014

Ana O. em príncipes e sapos nas aventuras rodriguianas pós-moderna



Em postes anteriores conhecemos um pouco mais de nossa curiosa anti-heroína Ana O. No entanto, Ana não fala muito de seus amores porque na verdade tenta não pensar muito sobre eles. E por quê? Porque seria cômico se não fosse trágico. E não se preocupem caros leitores porque nossa amantíssima nessa versão do século XXI não se apaixonou por Freud.
Para termos uma dimensão das novelas mexicanas açucaradas que já passou, podemos até citar uma conversa com Zelda Scott, quando descreveu "sua" síndrome do pânico diante do estresse pós-traumático de um dos seus últimos relacionamentos. E o que isso significa? 
Que como toda boa mulher à la Almodova, ou seja neurótica, o nível de estresse com um dos “exs” foi tão grande que ao vê-lo ao acaso por aí, Ana começou a ter palpitações, medo de ameaça iminente, ânsia de vômito e vontade de sair correndo...e para longe. Observem então caros leitores, que não é correr para cima, mas para longe, bem longe... Águas passadas! O que na verdade incomodava Ana nesse momento não era os seus amores, atuais, antigos ou passageiros, mas sua amiguíssima Gal.
Ok! Ok! Cada um deve cuidar da sua vida e deixar que os outros vivam, mas o fato é que Gal assim como Ana, é uma personagem nessa comédia da vida privada bastante interessante. Aquele mix de indiferença alheia para se proteger com a necessidade de viver tudo de uma vez só, se entregando, se apaixonando, se consumindo de calor e amor, esperando calada, a tirava um pouco da realidade. Além claro, de torná-la extremamente paradoxal ao ansiar que sentimentos tão vorazes  se consolidassem em amores eternos. Mas como? Como consolidar o que parece por essência contrários? Paixão é incêndio, montanha-russa, borboletas no estômago, vontade de matar e de morrer. Amor não.  Amor é paisagem contemplativa da janela do carro, é brisa suave em dias quentes e aquiescência nos dias mais frios ou difíceis. O que o diga Arnaldo Jabor e Rita Lee. Como Gal poderia então desejar as duas coisas? Desejo de morte e desejo de vida?
Sem falsos moralismos, algo que Ana detestava, a única coisa que tinha a dizer a sua amiga em mais uma sessão consolação do tipo: "Não choro! Por isso não me console porque faço de conta que estou bem e que não estou decepcionada, apenas registrando o último fato da semana...” :
- Gal minha amiga, faça melhor proveito daquele dito popular enquanto não chega o homem certo vá se divertindo com os errados”. A vida pode te mostrar outras paixões que não os amores perdidos, mas a diversão gratuita, a paz interiorizada, os momentos com os amigos, o trabalho realizado, um café, um livro. Afinal mesmo quando temos certeza de que não queremos casar, ter filhos numa vidinha mediana, muitas vezes casamos, temos filhos e temos a tal vidinha mediana porque por um segundo nós mesmas nos enganamos e acreditamos que o homem que encontramos é o da nossa vida inteira. E somente mais tarde, por mais observadora e precavida que sejamos, e independe se casemos ou se estamos fazendo um "teste-drive" com o namô morando juntos, você vai descobrir que dormiu com um príncipe (desenhado de acordo com seus desejos e valores), mas acordou com um sapo coaxante irritante que diz coisas que você nem poderia imaginar que pudesse dizer ou fazer... Sem contar a difícil convivência com os antigos vícios dele e a necessidade regressiva de ter em você a próxima mãe substituta e idealizada: que tudo faz, consente, entende e aceita. Por isso Gal, paciência e viva a sua vida para você e não pelo outro. Então tenha mais calma tá?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Se eu fosse eu segundo Medeiros, Lispector e Iankel, seria melhor não sê-los

Desafiada a escrever um poste que dissesse "Se eu fosse eu" por meio da leitura do texto de Martha Medeiros em "Non-Stop", fiquei confusa e cheguei a três conclusões: A) Enlouqueci! E faz muito tempo. Algo que não me preocupa tanto mais; 

B) resumidamente se eu fosse eu seria uma cópia do não-eu de Martha Medeiros portanto,  quando descreve: 

"Se eu fosse eu, reagiria. Diria exatamente o que penso e sinto quando alguém me agride (...)não regularia o tom de voz, nem pensaria duas vezes antes de bronquear (...), mesmo que mexicanizasse a cena. Reclamaria em vez de perdoar e esquecer (...)Se eu fosse eu, não providenciaria almoço nem jantar, comeria quando tivesse fome (...) Acordaria então às cinco, com toda a energia do mundo, recepcionaria o sol com um sorriso (...), e caminharia (...), até perder o rumo de casa, até encontrar o rumo de dentro.(...) riria abertamente do que acho graça: pessoas prepotentes, que pensam saber mais do que os outros, encorajaria os que pensam que sabem pouco (...) não evitaria dizer palavrões, não fingiria sentir certas emoções que eu sinto, nem fingiria não sentir certas raivas que disfarço; Palavras que se completam com o que Iankel também escreveu...

"Se eu fosse eu, (...) não estaria aqui (...) Estaria passeando (...) no cinema sozinho (...) conversando com estranhos e desconhecidos.(...) Diria o que sinto e o que penso por mais triste ou feliz que fosse de frente a pessoa.(...)Se eu fosse eu, seria realista.(...) reagiria quando me magoassem sem perceber. Seria direto ao dizer a verdade sem medo de se importar com o que o outro sentiria. (...) Diante a primeira imposição, contestaria. (...) Lutaria até o fim. Remaria contra a maré por mais alta que estivesse. (...) Enfim, lamentaria a dor(...)"

C) Entendem agora porque é melhor não sê-los? Ou seja, o não-eu da Martha, da Clarisse e do Iankel? Porque assim sendo seus " não-eus" correspondem ao meu suposto eu livre. E o que significa isso? Que sou mais uma anônima louca, confusa, perdida e sozinha. Afinal quem pode/deve ser esse não-eu num mudo de simulacros?Respondo: NIN-GUÉM! O preço a pagar é alto demais. Talvez seja melhor um são vivo do que um louco moribundo. E quem sabe na próxima postagem cite não o meu eu, não-eu do outros, mas os nãos-eus que precisaria ser o eu por conta desses outros....


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Repaginando-se: Ana O. nas crônicas rodriguianas pós-modernas

Vontade de cortar o cabelo. Vontade de mudar a cor do cabelo. Vontade de fazer academia. Vontade de voltar ao Ioga. Vontade de tomar banho de piscina à noite. Vontade de ter um ano diferente. Um ano de realizações, de mudanças...Mas algo de estranho estava acontecendo na vida de nossa caríssima Ana O...

As semanas já começavam mais pesadas. "O que seria isso? - pensava - restos do ano que passou?E que haja então banho de sal grosso... Ela se negava a acreditar que mal o ano começara e os mesmos dramas se reproduziam. Estaria ela presa no tempo de um relógio que voltava sempre ao mesmo instante em que parou e repetindo, repetindo..."SO-COR-RO!"- pensava mentalmente. Nada de passado que já passou. Nada de porta fechadas entre-abertas. Nada de ex-amigos voltando como colegas. Nada de sofrimento por antecipação. Nada de excesso de controle. Nada de ruminar problemas que devem ficar onde acontecessem. Nada de arrastar correntes e estragar o dia. Estar de bem... E isso inclui não ficar pulando de galho em galho financeiro, de binco em binco empregatício, de caroneira...Carona é divertida e talvez traumática na juventude porque parece aventura de Indiana Jones quando seu ex-grande amor e sua ex-grande amiga lhe traem pelas costas. Nada mais de pelejas. Nada mais de paredes pra derrumar. Pensava apenas em: - Posso, por gentileza,  apenas dar à volta nela?

Essa era a Ana O. deste ano, apenas mais leve e solta. Afinal... "O que acontece em Hong Kong fica em Hong Kong, como bem dizia o personagem do filme que adorava em "Se beber, não Case"...Se o mundo permitir, é óbvio!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Ana O: nossa anti-heroína em mais uma aventura rodriguiana pós-moderna

Não! Ela não saiu do século XIX de uma máquina do futuro após uma sessão com Freud, parando aqui no século XXI. Na verdade nossa Ana O. é brasileira e de uma cidadezinha praieira. Nesse momento está em 2014 pós réveillon, no qual fez todos os rituais da data: pulou as ondas, comeu as uvas, estourou a champanhe, não comeu nada que ciscasse para trás...No entanto, sendo uma figurinha muito peculiar não foi à praia de branco. Decidiu usar uma cor diferente dos anos anteriores. Então nada de branco, rosa, nem amarelo. Claro que como todo mundo que participa desse ritual queria sim muita paz, saúde, dinheiro, amor e paixão, mas dessa vez ela precisava de algo bem específico que não tinha tido muito no ano anterior. Algo com a cor e  estilo descontraído equilibrado por uma maquiagem que faz um jogo olho e boca de forma marcante e harmônica. Afinal quem empresta sensualidade à roupa não são os ditames da moda, seu valor financeiro, nem muito menos seus tamanhinhos brilhosos e sim a personalidade criativa, inteligente, divertida, decidida e bem resolvida de mulher despreocupada com rótulos e com a idade cronológica que a veste. Nem que seja camiseta larga e calcinha tipo  shortinho.
Jogada então em um vestidinho longo leve, cheia de esperanças e metas renovada, volta Ana à coletividade em busca de sensações,"de piada barata e trocadilho bom”. Pois é! Esse negócio de organização doméstica, relatórios extras, equilibrar contas, ir e vir de seus três trabalhos para casa – Também não! Não é mais um episódio de “Todo Mundo Odeia o Cris” – além de “concurseira “–Nesse caso sim! Ela é mais uma brasileira insatisfeita com o trabalho por falta de grana e de reconhecimento –  Ana estava entediada. E ela odeia isso. Sempre deve haver uma pequena aventura a se fazer na vida: desde mochilar numa cidade estranha, perceber as ervas-daninhas floridas no meio do caminho até rir à toa de tão relaxada.
Para uma das primeiras empreitadas coletivas convidou Zelda Scott, que além de inteligente e super de boa consigo, era uma diplomata madura nata. As duas foram com uma turma de conhecidos e desconhecidos para um "auê” à noite. E tudo ia muito bem até o retorno quando uma “pseudofeminista” desconhecida decidiu a meia-noite ficar nua em plena orla marítima. Numa tentativa desesperada de mostrar “a verdade”, sobre o machismo alheio.

“Pobre menina – pensou Ana – e desde quando deixou ela também de ser reacionária com aquela e tantas outras atitudes daquele CON-TEX-TO? Desde quando fazer xixi de pé no meio da rua como os machões é sinal de liberdade? Desde quando rasgar dinheiro é sinal de desprendimento? Desde quando queimar o sutiã é sinal de revolução? Desde quando falar da importância do dedo médio masturbatório é libertador? Não estaríamos reproduzindo os mesmos estereótipos, coisificando pessoas e relações? 
Nem sabe essa pobre e jovem mulher que a maturidade revela que as nossas amarras não moram no sutiã, nem nas sanções sociais cristalizadas em nossas mentes por nossas bisavós como nossas. Isto é, as amarras são herdadas por nós e para nós, mas o que fazemos com ela e a importância que damos a ela ao longo da vida é que faz a diferença. Dona do que faz com o seu próprio corpo domesticado e temporariamente não reprimido socialmente, a desconhecida talvez não tenha se dado conta que esteja se tornado “pinel” em nome de uma verdade que não existe ante tantas verdades e mudanças. Afinal como diz o dito popular somente quem rasga dinheiro e come “cocô” é que de fato é taxado de maluco...

P.S.: Anônimo valeu pelo incentivo quanto a escrita e que bom que a leitura é convidativa...Mas quanto a Ana não sei bem se irei encontrá-la novamente. Torço que sim! ;)